Obcecados por raspadinhas, lotarias e bazucas financeiras

Parece existir espaço na sociedade para reflectir sobre os perigos sociais, psicológicos e materiais decorrentes da obsessão por ganhos fáceis, investimentos desenfreados e milagres financeiros associados aos jogos de sorte e azar.

Essa reflexão pode ser um bom atalho para pensarmos nos riscos de miséria geral que advêm de uma cultura de dependência de fundos comunitários e de crença em “galinhas de ovos de ouro”.

Da serenidade do confinamento, vão ressoando vozes de apreensão e de consciencialização relativamente ao comportamento aditivo de alguns portugueses que estarão eventualmente a depositar esperança e montantes significativos em lotarias. O empobrecimento e as responsabilidades financeiras incomportáveis que têm vindo a acumular-se na vida de tantos portugueses durante os últimos meses serão certamente um dos factores explicativos de alguma da compulsão por compra de raspadinhas ou outras apostas.

Ainda assim, isso não explicará tudo, porque o leque de perfis de consumidor é muito variado, indo do mais entusiasta que vê a aposta como um fim em si mesmo, pelo estímulo e prazer associados, até ao mais frio e descontraído comprador que pede esporadicamente uma raspadinha a par de um café. A diferença fundamental, como em qualquer outra actividade humana passível de se tornar aditiva, está em perceber se o indivíduo está na posse do auto-domínio e se consegue frear os seus impulsos ou se, pelo contrário, cai em desgraça, podendo ainda arrastar consigo aqueles que com ele se relacionam ou que dele dependem.

Ainda que os jogos de sorte ou azar não sejam um mal em si mesmos, como em tudo na vida e conforme recomenda a sabedoria aristotélica, é desejável que a sociedade incentive a moderação. É desejável ainda que cultive valores e hábitos de responsabilização individual, de poupança, de investimento em actividades produtivas e de conservação do equilíbrio psicológico e emocional.

De forma análoga, e em coerência, não podemos descurar a defesa das mesmas virtudes no domínio da governação. Admitindo que possa existir uma incidência preocupante de vício do jogo entre portugueses, comparativamente aos hábitos registados em outros países europeus, convém aplicar a mesma apreensão e sentido de disciplina aos governos, pois serão também os países mais vulneráveis, ou irresponsáveis, que cairão nesta procura por desafogo financeiro fácil. É preocupante que se verifiquem as mesmas inclinações perniciosas na conduta do próprio Estado.

Existem algumas diferenças, claro. Quem compra uma raspadinha fica apenas entregue à sorte (estupidamente, dirão os mais críticos) e não aplica qualquer conhecimento no resultado, enquanto os governos que esperam sempre pela obtenção de fundos europeus, distribuídos depois entre os seus lobbies e caciques mais influentes, gozam do exercício da sua própria esperteza na captura de rendimento fácil e imediato. Acresce que, pela elevada probabilidade de voltar a beneficiar de ajudas externas, o comportamento é muito mais aditivo do que a confiança nas raspadinhas, e a irresponsável gestão das poupanças ameaçará arrastar toda a sociedade para um horizonte de ruína económica e social.

Outra diferença fundamental é que o vício por ajudas externas é uma compulsão de uma classe político-partidária que promove despesas perdulárias, incremento do consumo e vida a crédito, num estilo muito acima das possibilidades produtivas do país, enquanto a compulsão por lotarias se verifica frequentemente entre aqueles que não têm outro meio de buscar algum rendimento adicional para a sua difícil subsistência.

É comum usar um tom de paternalismo benevolente em questões como a da procura por lotarias, ambicionando-se descobrir e implementar soluções fantásticas para os outros, enquanto se exibem publicamente boas intenções. A respeito deste fenómeno, a acção mais eficaz, discreta e responsável deverá começar pela dissuasão por parte daqueles que são mais próximos e que podem notar sinais de comportamento aditivo no indivíduo.

Já quanto à obsessão por “bazucas” financeiras, resta-nos pouco a fazer para além de recusar eleitoralmente programas políticos que repetem os mesmos erros de sempre. Nesta compulsão estatal por raspar incessantemente a generosidade europeia, a única esperança seria a manifestação de algum paternalismo europeu que fosse capaz de fazer vingar a execução de medidas estruturais nas economias nacionais.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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