Uma imagem vale, neste caso, mais do que as quase 600 palavras desta análise. Cada barra no gráfico deste artigo representa as dificuldades sentidas pelo setor automóvel na obtenção de materiais e equipamentos em cada trimestre. Os dados vão até ao final da década de 1980 e mostram bem o pesadelo que se tornou a construção de carros desde que o pós-pandemia abanou as cadeias globais de produção.
No último trimestre do ano passado, 80,8% das empresas identificaram obstáculos à atividade no fabrico de automóveis, sendo a insuficiência de materiais e/ou equipamentos apontada como o problema mais recorrente, com 88% das respostas. Valores iguais aos registados nos dois trimestres anteriores.
Os dados do Inquérito qualitativo de conjuntura à indústria transformadora, feito pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), mostram que o problema parece ter sido temporariamente sanado entre o final de 2024 e o início do ano passado, tal como de setembro a dezembro de 2023, mas desde o primeiro trimestre desse ano que esta dificuldade se tornou recorrente no setor, após os primeiros sinais de problemas no final de 2021, ainda durante a pandemia.
Nada se assemelha nas últimas quatro décadas, como se comprova pela mancha gráfica que os números do INE aqui desenham. Ainda houve uma série de constrangimentos neste capítulo na década de 90, mas longe do que assistimos neste momento. O maior problema no setor até aqui tinha sido a insuficiência da procura, com especial incidência durante a crise financeira global e, logo a seguir, na crise do euro. Quanto às dificuldades em contratar pessoal qualificado, dificuldades de tesouraria ou em obter crédito bancário, nunca foram realmente problemas sérios para a indústria automóvel em Portugal, segundo os dados do INE.

Chips e tempestades
O setor automóvel, e nomeadamente a indústria europeia, vive tempos de turbulência, com uma crescente concorrência da China, a transição para modelos mais sustentáveis, maiores custos com mão de obra e, entre outros problemas, a tal instabilidade no fornecimento de componentes.
Estão em causa, sobretudo, os chips, cuja crise teve um dos seus picos em setembro do ano passado, quando o governo dos Países Baixos tomou conta de uma fábrica chinesa em território neerlandês, dizendo estarem em causa riscos para a segurança nacional e
europeia. A Wingtech tenta recuperar o controlo, mas o braço de ferro ainda se arrasta, ameaçando o fornecimento mundial destes componentes.
A Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA) já se mostrou preocupada com esta crise no final do ano passado, porque “basta duas ou três empresas pararem por falta de componentes para toda a cadeia ser afetada”.
No entanto, este choque em cadeia não é o único risco no que se refere aos componentes. No mês passado, na sequência das tempestades que assolaram a zona Centro, vários “players” do setor, como a Volkswagen Autoeuropa, a Stellantis e a Bosch, mostravam-se cautelosos relativamente aos riscos de disrupção no fornecimento por parte de empresas da zona de Leiria, uma das mais afetadas pela depressão Kristin. Só que, umas semanas mais tarde, Thomas Hegel Gunther, até aqui diretor-geral da fábrica de Palmela, foi mais longe, reconhecendo ao Expresso que as tempestades provocaram interrupções em Marrocos, gerando problemas na cadeia logística de abastecimento de componentes para o T-Roc, o único veículo produzido na Autoeuropa no ano passado.
Feitas as contas às tempestades, a Associação Automóvel de Portugal indicou que houve uma quebra de perto de 8% na produção em janeiro, quando comparada com o mesmo mês do ano passado.
Para já, a fábrica de Palmela não espera que o objetivo de produção para este ano seja posto em causa. Mas também não faltam alertas para uma maior ocorrência deste tipo de fenómenos climáticos no futuro.
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