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Oceano fora das contas acrescenta 1,8 mil milhões de euros anuais ao custo do carbono

A inclusão dos impactos das alterações climáticas nos oceanos eleva o custo social do carbono de cerca de 47 para quase 90 euros por tonelada de C02, revelando perdas económicas até agora invisíveis que podem influenciar políticas públicas, decisões empresariais e avaliação de riscos financeiros ligados às emissões.
@Pixabay
16 Janeiro 2026, 09h30

Durante décadas, o impacto das alterações climáticas foi medido sobretudo em terra firme: ondas de calor, secas, incêndios ou perdas agrícolas. Mas um novo estudo internacional mostra que uma parte essencial da equação tem estado ausente — o oceano. E essa omissão pode estar a custar-nos caro.

Investigadores do Scripps Institution of Oceanography, da Universidade da Califórnia em San Diego, publicaram na revista Nature Climate Change a primeira estimativa integrada do impacto económico das alterações climáticas nos oceanos. O resultado é contundente: quando os danos marinhos são incluídos, o custo económico global das emissões de dióxido de carbono quase duplica.

A investigação foi divulgada pela Phys.org, sublinhando a importância de uma nova métrica — a chamada “componente azul” do custo social do carbono — que passa a quantificar, em termos económicos, perdas até agora tratadas como invisíveis.

O chamado custo social do carbono mede o prejuízo económico causado à sociedade por cada tonelada de CO₂ emitida. Até agora, esse valor rondava os 51 dólares por tonelada, o equivalente a cerca de 47 euros à taxa de câmbio atual aproximada. Com a inclusão dos impactos nos oceanos — desde a degradação dos recifes de coral à perda de pescas, passando por danos em infraestruturas costeiras e efeitos na saúde humana — o valor sobe para 97,2 dólares por tonelada, ou cerca de 89 euros. Trata-se de um aumento de 91%.

Em termos práticos, tendo em conta que as emissões globais de dióxido de carbono em 2024 terão ultrapassado os 41 mil milhões de toneladas, isto representa quase 1,8 biliões de euros por ano em danos associados apenas aos oceanos, custos que não estão refletidos nas actuais políticas climáticas nem nos mecanismos de compensação de carbono.

O estudo vai além das perdas de mercado mais óbvias, como a redução das receitas da pesca ou do comércio marítimo. Integra também impactos não mercantis, como a diminuição do valor nutricional do pescado, com menor disponibilidade de ómega-3, ferro e proteína, e as consequências indiretas dessa perda na saúde pública. A estes danos soma-se ainda o chamado valor de existência, isto é, o benefício imaterial que as sociedades retiram da simples presença de ecossistemas marinhos saudáveis, da biodiversidade e das paisagens costeiras, mesmo quando não existe uma utilização económica directa.

Segundo as projecções apresentadas pelos investigadores, até ao final do século os prejuízos anuais poderão atingir valores superiores a 1,5 biliões de euros em perdas de mercado, cerca de 206 mil milhões de euros associados à perda do valor intrínseco dos ecossistemas marinhos e aproximadamente 167 mil milhões de euros em impactos não mercantis, como os efeitos na nutrição e na saúde humana.

Os impactos das alterações climáticas nos oceanos não se distribuem de forma homogénea. Pequenos Estados insulares e economias fortemente dependentes do mar, muitas vezes com menor responsabilidade histórica pelas emissões de gases com efeito de estufa, estão entre os mais afetados. Nestes contextos, a redução da disponibilidade de peixe não é apenas uma questão económica, mas um problema de saúde pública, com efeitos mensuráveis no aumento do risco de doença e de mortalidade em populações particularmente vulneráveis.

A chamada componente azul do custo social do carbono não é apenas um exercício académico. Trata-se de uma ferramenta concreta para apoiar decisões políticas, planeamento financeiro e avaliação de riscos, tanto no setor público como no privado. Governos utilizam este indicador para avaliar se os custos de reduzir emissões são compensados pelos danos evitados, enquanto empresas podem usá-lo para compreender o impacto real das suas atividades e investimentos. O oceano, até agora, estava fora das contas. Este estudo demonstra que já não pode continuar assim.

 


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