O novo relatório, elaborado pela consultora Oliver Wyman e pelo banco de investimento norte-americano, Morgan Stanley, apresenta três cenários possíveis que colocam à prova o domínio dos EUA no wholesale banking.
Desde logo porque preveem que banca de empresas crescerá até 22% na Europa no cenário mais otimista (face aos 5% projetados para os Estados Unidos da América).
“Os EUA têm sido a força gravitacional no setor bancário grossista há décadas, mas as recentes tensões geopolíticas ameaçam o equilíbrio. Exploramos três cenários que testam o domínio dos EUA num mundo fragmentado. Os bancos não americanos podem colmatar a lacuna, mas serão necessárias mudanças significativas por parte dos decisores políticos e das equipas de gestão”, referem os autores do estudo.
A banca grossista (wholesale banking) oferece serviços financeiros a grandes empresas, governos e investidores institucionais, em vez de consumidores individuais. Estes serviços incluem empréstimos em grande escala, financiamento comercial, gestão de tesouraria e serviços de consultoria para transações complexas, como fusões e aquisições. Essencialmente, é o setor bancário que satisfaz as necessidades financeiras das grandes organizações e instituições.
A hegemonia dos Estados Unidos na banca grossista global poderá entrar numa nova fase. Esta é a temática do relatório anual conjunto da Oliver Wyman e da Morgan Stanley, “Defying Gravity: Can Non-US Wholesale Banks Win in the New World Order?” que analisa o panorama em mudança da banca grossista mundial e avalia se o domínio de décadas das instituições norte-americanas está em risco numa era de tensões geopolíticas e fragmentação económica.
Desde a crise financeira, o mercado e os bancos norte-americanos atingiram uma posição dominante na banca wholesale, onde os seis maiores bancos do país concentram 44% das receitas globais do negócio principal do Corporate & Institutional Banking (CIB) e 32% das receitas totais da banca grossista.
Nos Estados Unidos estão mais de 65 biliões de dólares em ativos (45% da propriedade global de ativos) atualmente, e os mercados de capitais americanos têm consistentemente apresentado retornos superiores em comparação com outras regiões. Esta é a base para os mercados profundos e líquidos que atraíram 70% das alocações de ativos, capturaram acima 65% dos volumes de negociação globais e permitiram às instituições financeiras americanas dominar o mercado global da banca wholesale. Os seis maiores bancos grossistas dos EUA captam 32% das receitas globais dos bancos grossistas e 44% das receitas do Core CIB (IBD – investment banking division e Mercados). Nenhum outro grupo de bancos grossistas chega perto.
Nas últimas duas décadas, a América dominou os pools de receitas globais do Wholesale Banking, aumentando de 36% em 2012 para 40% de quota em 2024. Dentro dos pools de receitas principais para CIBs (IBD+ Mercados), o fosso é ainda mais acentuado; com a América a representar 50% das receitas globais do Core CIB nestes produtos em 2024, face a 43% em 2007.
No entanto, a possibilidade de mudanças geopolíticas duradouras poderá alterar este equilíbrio e inclinar a balança a favor da Europa, da Ásia e dos mercados emergentes de todo o mundo, segundo o estudo.
Por outro, lado as instituições não bancárias (por exemplo, boutiques de bancos de investimento, fornecedores privados de crédito, fornecedores de liquidez não bancárias, fintechs) nos EUA têm crescido rapidamente desde a crise financeira global, gerando receitas em todo o conjunto de produtos deste setor. “Hoje, estimamos que as receitas de instituições não bancárias podem acrescentar mais de 10% aos conjuntos de receitas da região.
“Estamos num momento decisivo para a banca grossista global. Se os bancos fora dos Estados Unidos souberem aproveitar esta oportunidade, poderá verificar-se uma transformação real na composição geográfica da banca wholesale. Ainda é preciso redesenhar modelos de negócio, repensar a alocação de capital e reforçar o papel dos mercados locais”, explica Jaime Lizarraga, Sócio de Serviços Financeiros da Oliver Wyman.
Três cenários para o wholesale banking
O relatório apresenta três cenários possíveis para os próximos anos, que colocam à prova o domínio norte-americano no setor. No primeiro, de “primazia norte-americana reforçada”, os EUA consolidariam ainda mais a sua liderança, elevando a sua quota até 53% das receitas globais do negócio principal.
O segundo cenário projeta uma “contração global”, em que as alterações económicas e a crescente aversão ao risco provocariam uma desaceleração generalizada, afetando todas as regiões. Neste contexto, as receitas da banca grossista mundial poderiam diminuir 4% (cerca de 26 mil milhões de dólares) até 2028, antevê o estudo.
O terceiro cenário antecipa o surgimento de um “mundo multipolar”, com um crescimento e desenvolvimento relevantes dos mercados de capitais na Europa e na Ásia. Esta mudança representaria uma transformação estrutural do mercado e dependeria, em grande parte, de uma ação política coordenada por parte dos governos a nível global. Para este último cenário, o relatório antecipa que as receitas globais do setor poderão aumentar 15% até 2028, com a Europa e a Ásia a crescerem 22% e 21%, respetivamente, face aos 5% projetados para os EUA. A Oliver Wyman considera que este é o cenário “mais interessante e significativo para os interesses europeus”.
“Existe uma clara oportunidade para os bancos grossistas europeus e asiáticos conquistarem quota de mercado adicional nos principais mercados e melhorarem a rentabilidade”, refere o estudo.
Para os autores do estudo, há “um desafio a longo prazo para competir com o mercado norte-americano e os bancos grossistas dos EUA”.
No caso da Europa, o estudo aponta a existência de barreiras políticas e técnicas que têm travado, até agora, o desenvolvimento de mercados financeiros mais sólidos. “Consolidar uma posição mais forte face aos EUA exigirá que a Europa ultrapasse esses obstáculos e promova políticas que reforcem a competitividade e a profundidade dos seus mercados”, conclui a Oliver Wyman.
“Os Estados Unidos continuarão a ser o centro do setor bancário grossista, e os bancos não norte-americanos que pretendam destacar-se entre os novos líderes do mercado terão de adotar medidas de transformação para remodelar os seus modelos de negócio”, alerta ainda a consultora.
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