Um ministro das Finanças e um orçamento comum, as receitas de Blanchard para a Zona Euro

O antigo economista-chefe do FMI traçou o caminho para uma política monetária e orçamental mais coordenada para a zona euro. Além da criação de um posto de ministro das Finanças, Olivier Blanchard disse que é essencial agilizar as políticas sobre o défice e sugeriu um orçamento comunitário comum.

Maior e melhor integração orçamental na zona euro. Foi esta a tónica do discurso de Olivier Blanchard, antigo economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), que discursou, esta segunda-feira, na sessão de abertura do Fórum do Banco Central Europeu (BCE).

Em nome de uma maior coordenação da política monetária e orçamental entre os países da moeda única, o economista francês defendeu a criação de um posto semelhante ao de um ministro das Finanças para a zona euro. “Neste contexto, a coordenação entre a política monetária e orçamental torna-se mais importante”, disse. “É ainda mais difícil quando há 19 países envolvidos”, frisou Olivier Blanchard.

Mas as sugestões sobre a construção de uma política monetária “ideal” não se ficaram por aqui. Olivier Blanchard referiu ainda que os “défices devem ter utilidade”, enquanto instrumentos para manter a procura – sob pena de asfixiarem o nível de investimento público.

“Desde 2007, o rácio entre investimento público e o PIB na zona euro caiu 0,8%”, começou por dizer. “Com números preocupantes como -2,3% para a Grécia, -2,7% em Espanha, -1,3% em Portugal e -0,9% em Itália”, relembrou o ex-economista chefe do FMI. No entanto, alertou para não se cair na armadilha de “classificar tudo como um investimento” e sugeriu a criação de uma instituição no seio da zona euro “com a competência para decidir o que pode e o que não pode fixar-se abaixo do limite” ao investimento público.

Olivier Blanchard reconheceu também a necessidade de rever as “regras que definem os limites à dívida, a rapidez de ajustamento a estes limites, e a flexibilidade para responder à persistente fraca procura”.

“Mesmo que estas regras tenham sido as mais certas no passado, não poderão ser as mais certas atualmente”, salientou.

Quanto à expansão da política orçamental, o antigo economista-chefe do FMI considera que está aquém do necessário. “A razão prende-se com spillovers, ou seja, externalidades que surgem num grupo de países altamente integrados”. No entendimento de Blanchard, “o aumento da procura interna através da expansão orçamental tem impactos nas importações em vez de contribuir para o aumento da produção doméstica. Em consequência, os Estados-membros não deverão tomar grandes medidas e o gap de produção na zona euro deverá manter-se”, assinalou.

Para o economista francês existem dois obstáculos que impedem que a política macroeconómica da zona euro seja “ideal”: a falta de ajustamento dos preços entre os diversos Estados-membros e as baixas taxas de juro. “A política monetária deveria preocupar-se em manter o potencial produtivo da zona euro ou, de forma equivalente, manter a meta da inflação”, disse.

Como é que isto pode ser resolvido, questionou Blanchard. Uma das soluções consistiria na criação de um orçamento comum, “financiado através de obrigações europeias”, adiantou o ex-economista chefe do FMI. “Mas isto implica a partilha de risco e sabemos das dificuldades políticas que isso acarreta (tenho esperança que o embrionário novo orçamento seja um ponto de partida, e não um ponto de chegada)”.

O Fórum do BCE, que marca a despedida de Mario Draghi do cargo de presidente da instituição, decorre em Sintra até esta quarta-feira, dia 19 de junho e irá ter como foco os primeiros 20 anos da União Económica e Monetária e o futuro do crescimento na zona euro.

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