Onde mais cresce a produtividade?

Com os baixos níveis de salário médio que o país continua a apresentar, abaixo da média europeia, é natural que não seja possível a alocação de novos recursos humanos aos sistemas produtivos mais eficazes em Portugal.

Entre 1999 e 2018, a tendência nacional foi de aumento da produtividade, calculada através do VAB por trabalhador, mas a um ritmo cada vez menor. Ou seja, Portugal tem vindo a abrandar o ritmo de crescimento da produtividade, tendo sido essa redução de crescimento mais acentuada com a crise financeira de 2008, e ligeiramente menos declivosa na transição para o período de recuperação económica (2014-2018). Este último aspeto é revelador de um Portugal que não conseguiu recuperar os níveis de crescimento da produtividade registados no período pré-crise, tendo sido ainda inferiores aos do período da própria recessão.

Não obstante, é interessante analisar qual foi o comportamento do crescimento da produtividade nas várias regiões portuguesas. Terão estado todas as regiões de acordo com a tendência nacional? Ou haverá alguma que se destaca?

O projeto de investigação Padrões da Produtividade Regional e Setorial em Portugal, realizado, em parceria com o Departamento de Análise Económica do Banco Santander, por mim e por outros três colegas do Nova Economics Club – Inês Philippart, Caio Lomardo e Luís Ribeiro – chegou a algumas conclusões interessantes sobre as dinâmicas da produtividade regional e setorial em Portugal.

A Área Metropolitana de Lisboa, seguida da Área Metropolitana do Porto, foi, sem grande surpresa, a região onde a produtividade mais cresceu, em média, no período 1999-2018. Adicionalmente, são de destacar, por ordem decrescente, a região do Algarve, do Cávado e de Coimbra. Em todas estas cinco regiões, o setor dos serviços é aquele que explica, de forma mais expressiva, os valores do crescimento.

No entanto, o setor secundário, essencialmente ligado à indústria transformadora, revelou-se de uma importância significativa no crescimento da produtividade da AMP e do Cávado no período pós-crise, enquanto que, nas restantes regiões, foi um setor com produtividade decadente.

Focando-me neste período de recuperação da crise financeira de 2008, apesar de as Áreas Metropolitanas terem apresentado os níveis mais altos de crescimento, à semelhança do resto do país, não se conseguiu retomar o rumo do crescimento anterior à recessão. A principal razão detetada foi o facto de o aumento da produtividade não ter causado um aumento do número de trabalhadores nas regiões mais produtivas.

Ou seja, embora os trabalhadores portugueses tenham, em média, produzido mais, passaram a ser menos nas regiões onde havia potencial produtivo para estarem em maior número. Com os baixos níveis de salário médio que o país continua a apresentar, abaixo da média europeia, é natural que não seja possível a alocação de novos recursos humanos aos sistemas produtivos mais eficazes em Portugal.

Das cinco regiões com maior crescimento médio da produtividade, houve apenas uma que não seguiu a tendência nacional no período pós-crise – o Algarve. A região algarvia foi a única que conseguiu efetivamente recuperar, atingindo níveis de crescimento superiores aos da crise, mas ainda longe dos registados antes da mesma. Tal melhoria pode ser atribuída ao setor do turismo, que foi, como é sabido, uma peça fundamental da recuperação económica.

Portugal está de novo em crise. As medidas adotadas têm sido completamente diferentes. No entanto, temos setores inteiramente paralisados, tais como o turismo, que poderão vir a causar alterações significativas no tecido produtivo das regiões. Será que a recuperação do crescimento da produtividade será melhor sucedida?

O artigo exposto resulta da parceria entre o Jornal Económico e o Nova Economics Club, o grupo de estudantes de Economia da Nova School of Business and Economics.

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