Ordem dos Enfermeiros: Portugueses estão em risco devido aos “poucos e exaustos” enfermeiros

Para Ana Rita Cavaco, o ministro “nunca fez parte da solução, mas sim do problema; prefere maquilhar os problemas a enfrentá-los e a resolver. Prefere ameaçar e perseguir, como no caso das faltas aos enfermeiros durante uma greve legalmente convocada pelos sindicatos”.

Reuters

A bastonária da Ordem dos Enfermeiros considera que os portugueses estão a correr riscos nos serviços de saúde devido à falta destes profissionais, que são “poucos, estão exaustos e incapazes de prestar cuidados de segurança e qualidade”.

Nestas condições, os enfermeiros “cometem mais erros e é desumano trabalharem muitas vezes sem tempo para comer ou ir à casa de banho”, disse Ana Rita Cavaco, que tomou posse como bastonária da Ordem dos Enfermeiros há dois anos, pouco depois do atual ministro da Saúde, cuja atuação classifica de “péssima”.

Em entrevista à agência Lusa, realizada por escrito por impedimentos de agenda da bastonária, Ana Rita Cavaco referiu que “os enfermeiros têm hoje menos medo” do que quando tomou posse, mas que “são ainda muito castigados com excesso de trabalho”.

“Só em 2016 o país pediu-lhes para fazerem mais de dois milhões de horas a mais, que até agora não lhes pagou”, afirmou.

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) tem 41 mil enfermeiros e a bastonária acredita que faltam 30 mil no sistema de saúde.

Os enfermeiros “estão mal pagos, não são suficientes para garantir a segurança e a qualidade dos cuidados e estão extremamente zangados com os sucessivos governos que os elegem como pilar do sistema de saúde mas os maltratam em tudo”.

Para Ana Rita Cavaco, os casos mais gritantes atingem todas as áreas: “Hospitais, centros de saúde, lares, cuidados continuados”.

“É o cúmulo da hipocrisia ter um enfermeiro num turno para quarenta e, às vezes, sessenta pessoas. Dizer ao país que estamos a abrir unidades de cuidados continuados e paliativos onde existe um enfermeiro para dois pisos, cada um com trinta ou quarenta camas, não é só enganar as pessoas, é criminoso”, observou.

Ana Rita Cavaco desdiz o ministro da Saúde sobre a contratação de mais enfermeiros.

“É ao contrário. Contratou menos e é muito fácil desmontar os números que apresenta porque se trata de substituições de enfermeiros que vão de baixa médica ou licenças e não de novas contratações”, declarou.

E prossegue: “Não estamos a prestar cuidados de enfermagem seguros e de qualidade em Portugal porque não temos o número suficiente de enfermeiros para o fazer”.

“Logo no início do mandato apresentámos uma proposta de contratação de três mil por ano, no prazo de dez anos, estamos a falar de migalhas, 65 milhões ao ano”, referiu.

Para Ana Rita Cavaco, a atuação do ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, é “péssima”.

“A dívida à indústria farmacêutica é hoje maior do que na altura da chegada da ‘troika’. Não resolveu um único problema estrutural do SNS e, quando se viu confrontado com denúncias como as que assistimos no final deste ano no hospital de Faro, preferiu esconder-se e provocar os enfermeiros, dizendo-lhes que dessem a cara”, acusou.

Segundo a bastonária, “os enfermeiros dão a cara todos os dias nos serviços de saúde e este ministro esconde-se e esconde os problemas que queremos resolver. É incapaz de cumprir um compromisso que assuma, aliás, não cumpriu nenhum nos últimos dois anos”.

“Durante a crise dos enfermeiros especialistas demonstrou uma total ausência de sentido de Estado e responsabilidade, insultando publicamente a maior classe profissional do SNS e dizendo-nos em privado que queria lá saber se fechassem todos os blocos de partos do país”, acusou mais uma vez.

Para Ana Rita Cavaco, o ministro “nunca fez parte da solução, mas sim do problema; prefere maquilhar os problemas a enfrentá-los e a resolver. Prefere ameaçar e perseguir, como no caso das faltas aos enfermeiros durante uma greve legalmente convocada pelos sindicatos”.

Em 2018, a contratação de mais enfermeiros, porque isso é a base de tudo o resto, seria o que de melhor podia acontecer à classe.

“Ter uma carreira estruturada com diferentes categorias e índices remuneratórios e que, de uma vez por todas, lhes reconheça a especialidade e pague mais do que os menos de mil euros que hoje recebem para cuidar da vida de todos nós. Uma carreira que não dependa de nomeações com base em amizades ou cartões partidários é uma questão de liberdade, de premiar o mérito e a competência e interfere naturalmente na melhoria da prestação dos cuidados de enfermagem”, concluiu.

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