Organização 55+ combate desemprego e sedentarismo com serviços remunerados

A missão da organização 55+ é dar emprego à população que não consegue arranjar emprego devido à sua idade mas que ainda é nova para a reforma, cuja idade está atualmente fixada em 66 anos e sete meses.

A taxa de desemprego em adultos entre os 25 e os 74 anos está a aumentar desde março de 2021, situando-se em 5,9% em maio do presente ano, de acordo revelado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). As mulheres representam 7,5% e os homens 6,8% do desemprego em Portugal.

A pandemia levou a uma subida vertiginosa da taxa de desemprego em adultos, alterando a curva descendente que se verificava até março de 2020. Se os cidadãos na faixa etária dos 30 anos têm menos dificuldade para arranjar emprego, as faixas etárias acima dos 55 anos são as que apresentam mais dificuldades, com o ditado a dizer que são ‘velhas para trabalhar e novas para se reformarem’.

A missão da organização 55+ é dar emprego à população que não consegue arranjar emprego devido à sua idade mas que ainda é nova para a reforma, cuja idade está atualmente fixada em 66 anos e sete meses.

Elena Durán criou a organização social em 2018, quando se despediu do seu trabalho estável na Unilever. Para Elena Durán, de nacionalidade espanhola, o intuito da 55+ sempre foi valorizar e integrar cidadãos com mais de 55 anos, que estejam desempregados ou aposentados, e dar-lhes uma remuneração extra através de pequenos serviços para ajudar a comunidade.

De pequenas reparações, a passar a ferro ou à jardinagem, Elena Durán já ajudou mais de 1.900 pessoas a integrarem-se novamente a sociedade, garantindo a essas mesmas pessoas mais de 60 mil euros de remuneração.

Continua a ser difícil para as pessoas acima dos 50 anos arranjar emprego, embora a idade da reforma continue a subir. Em que consiste a 55+?

A 55+ surgiu exatamente da necessidade de colmatar a falha existente na sociedade para com a população mais velha. Somos uma  organização social que tem como objetivo dar uma nova oportunidade e valorizar as pessoas que estejam desempregadas, reformadas e inativas com mais de 55 anos, combatendo assim a solidão e sedentarismo desta faixa etária. Para que estas pessoas se sintam ativas, saudáveis e úteis na sociedade, criámos uma plataforma online, mas ainda assim humana, onde qualquer pessoa que tenha mais de 55 anos que se encontre numa situação de inatividade tem possibilidade de se inscrever para prestar serviços úteis para o dia-a-dia e receber uma remuneração sob esses serviços prestados.

Por que razão decidiu criar a organização 55+?

Quando vim trabalhar para a Unilever em Portugal, onde exercia um cargo de Gestão, Marketing, Vendas e Estratégia, estava muito feliz, mas não me sentia totalmente realizada. Foi quando o meu pai se reformou após ter trabalhado como diretor de uma escola por 30 anos, que me apercebi que teria de arranjar uma forma dele continuar ativo e integrado na sociedade.

Depois de muita pesquisa sobre que soluções existiam em Portugal para pessoas reformadas, cheguei à conclusão de que eram praticamente inexistentes. Despedi-me do meu emprego logo assim que o meu filho nasceu e decidi abraçar esta oportunidade de criar um projeto que colmatasse o problema da inatividade e solidão das pessoas que se encontram inativas, desempregadas ou reformadas com mais de 55 anos. Isto porque ao longo da minha pesquisa percebi que existem, em Portugal, três milhões e meio de pessoas com mais de 55 anos entre elas dois milhões e meio que se encontram numa situação de inatividade.

Quais as oportunidades que as pessoas acima dos 55 anos sentem quando entram no programa?
A 55+ não pretende apenas valorizar pessoas via trabalho e remuneração, também garantimos a componente humana e a criação de uma rede de suporte informal, consolidando o apoio a pessoas com mais de 55 anos. Como tal, as oportunidades que os nossos especialistas sentem são essencialmente de terem a possibilidade de criar uma nova comunidade onde se sentem ativos, valorizados e integrados. Para isso acontecer, mais do que oferecermos a possibilidade de prestarem serviços remunerados, numa componente mais de inclusão social, realizamos também workshops, convívios e formações. Com a pandemia, conseguimos adaptar este tipo de ações a uma nova realidade, criando dinâmicas online onde conseguimos juntar os especialistas e toda a equipa 55+. Mais do que conseguirmos ativar pessoas com mais de 55 anos no mercado de trabalho, queremos que sintam que estão integradas numa comunidade que luta diariamente para que se sintam bem na sociedade onde estão inseridas.

Quais as principais preocupações das pessoas reintegradas na organização?
As principais preocupações que sentimos por parte dos nossos especialistas são o isolamento social, as relações que ficam comprometidas devido à inatividade e o facto de não conseguirem emprego devido à idade. Estas preocupações agravaram-se ainda mais devido à atual situação pandémica que vivemos. Como tal, o nosso papel é também empoderar as pessoas, incentivá-las para que pensem de forma positiva
nestes novos caminhos, assim como reforçar que a idade não é impedimento para aprender, ganhar novas competências e desenvolver novas atividades ou trabalhos.

Quantas pessoas estão atualmente inscritas?
Atualmente, estão inscritas mais de 1.900 pessoas na plataforma, o que para nós é um número que comprova a necessidade transversal à solução que propomos.

Que tipos de trabalho os inscritos na organização desempenham?
Os nossos especialistas desempenham serviços de comida ao domicílio, pequenas reparações, jardinagem, pet sitting, babysitting,  acompanhamento de seniores, aulas de música e línguas, entre outros. É possível acrescentar mais serviços tendo em conta a necessidade do cliente ou as capacidades do especialista inscrito. Todos os especialistas passam por uma fase de avaliação dos seus serviços para que seja
garantida a máxima qualidade dos mesmos e para garantir que os especialistas se sentem confortáveis a realizá-los. Qualquer pessoa pode adquirir estes serviços úteis para o dia-a-dia através do nosso site.

A remuneração depende do tipo de função desempenhada?
Cada serviço tem um preço mínimo cobrado ao cliente. Depois do pedido efetuado na plataforma, será analisado pela nossa equipa que vai encontrar o especialista ideal para o determinado serviço em questão. Esse especialista receberá o pagamento de acordo com o serviço que irá realizar e horas de trabalho. Os pagamentos são feitos no final de cada mês através de recibos verdes, ato único ou ainda em troca de  outros serviços, que lhes sejam úteis, prestados por colegas 55+.

Como é realizado o financiamento do 55+?
Quando iniciámos o projeto, fizemos um investimento de 50 mil euros. Posteriormente conseguimos o apoio dos municípios de Lisboa,  Aveiro, Porto, Maia, Paredes e Valongo, assim como da Fundação Aga Khan. Fundação Ageas e Fundação Millennium.

Adquirimos também uma parceria através de um programa que gere fundos europeus para inovação social. Os nossos parceiros públicos representam cerca de 30% dos custos e os restantes 70% chegam-nos de fundos europeus.

Em quantos concelhos o programa está presente? Planeiam uma expansão?
Atualmente, a nossa plataforma já está a funcionar nos concelhos do Porto, Matosinhos, Maia, Paredes e Valongo, assim como em Aveiro e nos concelhos da Grande Lisboa. A chegada à região Norte e Aveiro decorreu este ano enquadrada na nossa estratégia de expansão a novos territórios. Contamos no futuro continuar a expandir para outras regiões do país, no sentido de partilharmos a nossa missão a todos os que precisem.

Quais os objetivos para o futuro da associação?
Queremos continuar a ativar, valorizar e integrar pessoas 55+ na sociedade para prevenir ou evitar a solidão e melhorar o seu bem-estar, maximizando o nosso impacto social por todo o país. Quando uma pessoa chega até nós e nos diz que “já vali” ou “já não me sinto valorizada” sentimos que ainda temos muito trabalho pela frente ao tentarmos desconstruir este preconceito da sociedade. Daí ser tão importante para nós expandirmos a nossa missão a todas as regiões do país. É fundamental reconhecer e valorizar a experiência de vida desta geração e a sua capacidade de superação. Como tal, os nossos objetivos futuros são também informar a sociedade promovendo a quebra do estigma, preconceito, idealismo associado a esta faixa etária. O desafio final da 55+ é assim, ser uma associação para todos, criando espaços às  relações de proximidade, promovendo um efeito multiplicador na sua rede e gerando mais impacto na atual sociedade e gerações futuras.

Recomendadas

Mediadores imobiliários: “Em 2022 vão surgir oportunidades no interior do país”

Presidente da APEMIP acredita que os grandes grupos continuarão a investir, apesar do fim dos Vistos Gold em Lisboa e no Porto.

“Temos fatores de produção exageradamente desfasados [da concorrência]”

O sector agroalimentar português é competitivo, mas perde força por causa dos custos de contexto. Ao JornalEconómico, o presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) defende que o Governo tem de ter um papel de apoio. “O Ministério da Agricultura pode estar a pensar em muita coisa, mas na agricultura não está seguramente”, acusa.

PremiumGilles Lipovetsky: “A inteligência é a única riqueza da Europa”

O olhar acutilante do pensador francês sobre a sociedade contemporânea é sempre um ponto de partida estimulante para saber em que ponto de (des)equilíbrio nos encontramos. Gilles Lipovetsky não abdica do seu “fundo otimista” e considera que temos os meios para resolver a grande crise que hoje enfrentamos, a crise climática. Mas sublinha que “a humanidade não irá evoluir pela via da moral”. É fundamental inovar e mudar os modelos de produção, diz-nos.
Comentários