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Os 56 mil mais ricos do planeta cabem num estádio de futebol

São a elite da elite, 0,001% da população mundial e o seu património continua a crescer. A seguir, surgem os 10% que detêm 75% da riqueza global. Já os 2,8 mil milhões que compõem os 50% mais pobres precisariam de 50 estádios para os encher.
@Pixabay
22 Dezembro 2025, 15h50

A riqueza externa materializa-se em metros quadrados com vista para o mar, casas espalhadas por vários fusos horários, aviões privados com tripulação própria, ilhas particulares… enfim os mais ricos compram luxo com a mesma facilidade com que outros bebem um simples café. Depois há ainda os ultra ricos. Os que ocupam o topo absoluto da hierarquia económica global — mas quantas pessoas vivem, afinal, nesse patamar quase abstrato da riqueza? Estamos a falar de um grupo tão pequeno que caberia num estádio de futebol. As conclusões da Terceira edição do World Inequality Report 2026 apontam que existam apenas 56 mil pessoas detentoras deste “tesouro”, representando 0,001% da população mundial, em contraste com os 2,8 mil milhões de adultos nos 50% mais pobres.

Esta nata da nata controla sozinho três vezes mais riqueza do que metade da população do planeta. Um dos gráficos do relatório mostra que a sua riqueza continua a crescer a uma taxa mais rápida — perto de 4%, em 1995 para 6% atualmente. Desde a década de 90, a riqueza dos bilionários cresceu a uma taxa de aproximadamente 8% ano. Sabe aquela máxima de colocarem o dinheiro a trabalhar para eles, acontece neste segmento. Além disso, segundo um artigo do The Guardian, esses acumuladores de riqueza geralmente possuem centenas de milhões de euros, sendo que a pessoa média do grupo tem cerca de mil milhões de euros.

Se descermos para a segunda posição do pódio dos mais afortunados, o estudo diz que a desigualdade permanece em níveis elevados. “Os 10% mais ricos da população mundial ganham mais do que os 90% restantes, enquanto a metade mais pobre da população mundial detém menos de 10% da renda global total. A riqueza é ainda mais concentrada: os 10% mais ricos detêm 75% da riqueza global, enquanto a metade mais pobre detém apenas 2%”, lê-se no relatório.

Desigualdade e crise climática: duas faces do mesmo problema

Um dos contributos mais inovadores deste relatório é a análise da desigualdade climática associada à propriedade do capital. Ao contrário das abordagens tradicionais centradas apenas no consumo, o estudo demonstra que a posse de ativos produtivos desempenha um papel central na responsabilidade pelas emissões de gases com efeito de estufa.

Os resultados são inequívocos: os 10% mais ricos do mundo são responsáveis por 77% das emissões globais associadas ao capital privado, enquanto a metade mais pobre contribui com apenas 3%. O 1% mais rico, sozinho, é responsável por 41% dessas emissões. Esta desigualdade é particularmente grave porque quem menos contribui para a crise climática é, simultaneamente, quem mais sofre com os seus impactos. A crise ambiental é, assim, também uma crise social e distributiva.

Desigualdade de género: trabalho invisível, desigualdade real

A desigualdade entre homens e mulheres continua a ser uma das formas mais persistentes de injustiça económica. Globalmente, as mulheres recebem pouco mais de um quarto do rendimento total do trabalho, uma proporção que quase não se alterou desde 1990. Mesmo nas regiões mais igualitárias, como a Europa ou a América do Norte, as mulheres não ultrapassam os 40% do rendimento do trabalho.

Quando se inclui o trabalho doméstico e de cuidados não remunerado — maioritariamente realizado por mulheres — a desigualdade torna-se ainda mais evidente. Em média, as mulheres trabalham mais horas por semana do que os homens, mas o valor económico do seu trabalho é muito inferior. Considerando apenas o trabalho pago, as mulheres ganham cerca de 61% do rendimento horário dos homens; quando se inclui o trabalho não remunerado, esse valor desce para apenas 32%. Esta realidade representa não só uma injustiça social, mas também uma ineficiência económica profunda.

Desigualdade entre regiões e de oportunidades

As disparidades entre regiões do mundo permanecem enormes. Mesmo após ajustamentos pelo custo de vida, o rendimento médio de um habitante da América do Norte ou da Oceânia é cerca de treze vezes superior ao de uma pessoa na África Subsariana. Em termos diários, isso corresponde a cerca de 125 euros contra apenas 10 euros.

Estas diferenças são agravadas por desigualdades extremas no acesso ao capital humano. Em 2025, o investimento médio anual em educação por criança era de cerca de 220 euros (em paridade de poder de compra) na África Subsariana, face a mais de 7.400 euros na Europa e nove mil euros na América do Norte. Trata-se de um fosso superior a 40 para 1 — muito maior do que a diferença no rendimento per capita — que compromete seriamente a mobilidade social e perpetua hierarquias globais de riqueza.


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