Os bancos e as ondas de choque da nacionalização da Efacec

Isabel dos Santos não tinha experiência na área da tecnologia, mas os bancos portugueses emprestaram-lhe 110 milhões para a compra da Efacec porque era tida como uma pessoa poderosa, filha do Presidente de Angola, dona de um vasto império empresarial e parceira de grandes empresas portuguesas. As garantias desse empréstimo esfumaram-se com a nacionalização e agora os bancos esperam que, na melhor hipótese, o Estado lhes pague alguma coisa quando a empresa for reprivatizada.

A nacionalização da Efacec deixou em risco os bancos que emprestaram 110 milhões de euros a Isabel dos Santos, quando a empresária angolana adquiriu a empresa de tecnologia. Os bancos emprestaram o dinheiro a Isabel dos Santos, recebendo em troca ações da Efacec, as quais, com a nacionalização, deixaram de poder servir de garantia.

Os bancos em questão alimentam agora a esperança de que o Estado lhes pague uma compensação, após a venda da empresa. Desde que o Estado não seja prejudicado, trata-se de uma pretensão razoável. Mas esperemos que, mais um vez, os lucros não fiquem para os privados e os prejuízos para os contribuintes, algo que tem sido recorrente nos últimos anos. Vejamos: os bancos em questão emprestaram dinheiro a uma investidora que não tinha qualquer experiência na área de negócio da Efacec. E fizeram-no através de um crédito a uma offshore cujo nome, Winterfell, terá sido inspirado na “Guerra dos Tronos”, o que até teria a sua graça se não estivéssemos a falar de coisas muito sérias. A verdade é que, tal como muitas outras entidades que se associaram a Isabel dos Santos, os bancos aceitaram financiar a empresária porque esta era uma pessoa poderosa, filha do presidente de Angola, dona de um vasto império empresarial, capa de revistas de economia e parceira de grandes empresas. Para além dessa garantia quase soberana que representava o nome de Isabel dos Santos, os bancos receberam como colateral as ações da própria Efacec.

Todos sabiam o que Isabel dos Santos representava, mas ou acharam que o sistema em Angola duraria para sempre, ou simplesmente que não nos podemos dar ao luxo de ter preocupações com a forma como outros países são governados e explorados pelas suas oligarquias. Agora que Isabel dos Santos perdeu esse estatuto de intocável e está a braços com a Justiça do seu país, dificilmente a banca portuguesa lhe voltará a emprestar dinheiro para comprar empresas de tecnologia em Portugal, ainda que neste momento a empresária já possa dizer que tem alguns anos de experiência e know how nessa área.

Os bancos devem correr riscos. A ideia de que a banca não deve arriscar, resumindo-se a emprestar dinheiro a quem dele não precisa, constitui a negação da sua razão de existir. A banca serve para canalizar as poupanças de um país para financiar projetos pessoais e empresariais que criem mais riqueza e postos de trabalho. É essa a sua função e isto implica tomar riscos. Mas para além do risco de crédito, há risco reputacionais que devem ser tidos em conta, sob pena de ter de pagar a fatura mais tarde. Quando decidimos fazer negócios com determinados players, não vale a pena depois dizer que não vimos ou não sabíamos.

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