Os donos do 25 de Abril

O 25 de Abril, independentemente dos projectos de quem o fez, é um extraordinário momento de libertação e emancipação. O povo manso, cabisbaixo e caladinho, deu lugar ao povo unido que jamais seria vencido. Quem inventou o slogan, claramente não estava a sério, mas o Povo levou a coisa à letra.

Se aceitarmos Vasco Lourenço como autoproclamado pai do 25 de Abril, temos de recorrer à ideia daquelas crianças lindas, filhas de pais grotescos. O maior elogio que ouvi até hoje a Vasco Lourenço, foi de que se moderou a dada altura, face aos mais tresloucados e sanguinários do grupo. Nunca lhe conheci uma ideia política articulada, uma linha de pensamento estruturada, um vislumbre de interesse ou inteligência. O seu sequestro do 25 de Abril, se não fosse ridículo, era caso para séria preocupação nacional. A sua Postura, tal como a do Bolinha, é de que naquele clube só entra quem ele quer. Bastaria recordar, entre muitas, as suas profundamente infelizes declarações aquando da morte de Diogo Freitas do Amaral.

Quer isto dizer que nada devemos aos militares de Abril? Claro que não. Uns melhores que outros, com variadíssimos graus de inteligência, dignidade e justeza de intenções, deram ao país a liberdade irrevogável. Ficarão na História como os homens que interromperam uma das mais longas ditaduras da Europa do século XX. A especulação histórica diz-nos que poderiam ter sido outros, mais preparados e mais capazes do que os capitães descontentes, mas a história não se faz de possibilidades alternativas, apenas do que realmente acontece. Da minha parte, apesar de muitos deles se terem revelado indignos do acto, sei que lhes devo a liberdade. E não é pouco.

O 25 de Abril, independentemente dos projectos de quem o fez, é um extraordinário momento de libertação e emancipação. O povo manso, cabisbaixo e caladinho, deu lugar ao povo unido que jamais seria vencido. Quem inventou o slogan, claramente não estava a sério, mas o Povo levou a coisa à letra. Uniu-se e não se deixou vencer. Resistiu a nova tentativa de ditadura e só parou quando à Liberdade se adicionou a Democracia. Esta emancipação, esta atitude de apego e vivência da liberdade, não foi bem vista por muitos dos que sonharam o mesmo rebanho com um pastor diferente. O prolongamento forçado da vigência do Conselho da Revolução e a sobrevivência artificial até hoje de microestruturas que se intitulam guardiãs da revolução, são atestados disso mesmo. A revolução pode ter os guardiões que quiser, são como a sociedade histórica do Desembarque do Mindelo, mas a Liberdade e a Democracia não têm donos, devendo ser cuidadas e guardadas pelo Povo no seu todo.

Não devia ser preciso estar a falar nisto nesta altura. Deveríamos aproveitar a data para fazer pedagogia democrática, para compreender os novos desafios que os dois extremos põem à saúde da democracia, para interpretar seriamente os impactos da ordem mundial no nosso modelo de sociedade, para analisar a resiliência do regime face a um desafio da dimensão da pandemia, para pensar no ambiente como pedra angular do sistema, para encontrar respostas razoáveis às migrações e às grandes desigualdades.

Em troca, Vasco Lourenço, o autoproclamado dono do 25 de Abril, continua em 1974, negando qualquer possibilidade de amplitude e utilidade à efeméride, condenando-a ao anacronismo e a uma peça de museu sem qualquer tipo de interesse para as novas gerações. Ao excluir a Iniciativa Liberal das comemorações com uma desculpa esfarrapada, e atenta a lista dos participantes autorizados, Vasco Lourenço confirma a sua visão ultramontana da coisa; aquilo é só deles, não está aberto a mais ninguém. Não é da Liberdade ou da Democracia que se trata, é apenas do elogio de uma gente que se esgotou num momento e se recusa a aceitar e acompanhar a marcha do mundo. É pena.

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