Os estádios de futebol são zonas de excepcionalidade linguística que servem, acima de tudo, para anular qualquer sentido de auto-contenção e de responsabilização de atitudes racistas, homofóbicas e de violência verbal. Os actos de condenação e indignação geral estão reservados para a violência, fomentada pelas claques ou adeptos, susceptível de ameaçar a integridade física dos espectadores.
Numa cultura de massas, o estádio consagrou-se como um espaço de constante agressão verbal e de insultos racistas e homofóbicos entre jogadores e adeptos. Esta cultura está enraizada nos estádios e não se perspectiva qualquer mudança de comportamento por parte dos atletas e, sobretudo, dos adeptos. Pois tal mudança implicaria questionar alguns valores associados ao comportamento das massas, toldadas pelas emoções e movidas por devoção ao seu clube.
Assistimos, pois, a uma normalização dos comportamentos agressivos e condenáveis dos adeptos nos estádios, o que acaba por produzir uma legitimidade excepcional. Assim, quando um jogador, como Vinicius Jr., clama pela defesa dos seus direitos mais primários e pela responsabilização de quem pratica actos racistas, acaba por ser questionado (e até responsabilizado!) pela forma como festeja um golo ou provoca os adeptos. Já são velhas as formas de justificar um comportamento racista, como se este comportamento dependesse da postura do jogador e não da sua condição de ser negro.
Esta postura de Vinicius Jr. visa, somente, quebrar com uma zona de excepcionalidade na linguagem adoptada pelos adeptos e jogadores. Porque proferir comentários racistas dirigidos a atletas negros é uma prática normalizada nos estádios e estes deviam sujeitar-se, através do silêncio, como sempre aconteceu.
As reacções de vários atletas negros, tendo à cabeça Vinicius Jr., que decidiu não mais tolerar os actos racistas e denunciar, colocam em causa a cultura de massas, que sempre beneficiou de uma certa legitimidade para fomentar a violência racista verbal, sem condenação. Estaremos perante a “saída da grande noite”? Porque hoje assistimos a uma transformação da consciência da vítima, que denuncia e não consente em silêncio, ao contrário do que sucedeu, historicamente, com grandes figuras negras do futebol mundial que foram vítimas de racismo.
Haja mais Vinicius Jrs.



