Há uma peculiaridade portuguesa na gestão do tempo estratégico: as decisões difíceis não se tomam, anotam-se para a reunião seguinte. A substituição dos F-16AM/BM da Força Aérea tem sido tratada com essa elegante procrastinação que confunde prudência com paralisia. O problema é que os ciclos de aquisição de aeronaves militares não respeitam calendários eleitorais. A decisão é agora, ou será feita em condições que outros fixarão por nós.

Diga-se, com justiça, que o atual governo tem dado sinais diferentes dessa tradição. Nas escolhas de equipamento de defesa que tem feito, sem ceder a pressões de corredor e sem confundir o interesse nacional com o interesse do fornecedor mais vocal, tem demonstrado uma maturidade estratégica que não era garantida. Recorde-se que a identidade da nossa Força Aérea não nasceu de um monolitismo técnico: operámos plataformas alemãs ou francesas com o mesmo brio com que voamos americanos. O alinhamento com Washington, que num quadro de Guerra Fria era um imperativo de sobrevivência, deve hoje evoluir para um lobby patriota, em que a lealdade ao aliado não se confunda com submissão ao fornecedor e em que se privilegie a autonomia de decisão sobre o conforto da prateleira externa. No dossier dos F-16, a pressão já chegou.

O contexto em que esta escolha se insere mudou de forma estrutural. A nova Estratégia de Defesa Nacional americana, publicada no início deste ano, não deixa margem para interpretações benevolentes. A segurança deixou de ser um valor partilhado e converteu-se numa mercadoria graduada pela utilidade estratégica de cada aliado. O guarda-chuva americano passou a ter balcão de faturação. Quem ainda planeia a sua defesa como se o artigo 5.º fosse uma apólice automática está a trabalhar com um mapa que já não corresponde ao território. Neste novo quadro, a escolha do próximo caça português deixou de ser apenas uma decisão técnica. Passou a ser também uma decisão sobre o grau de dependência política que estamos dispostos a aceitar.

Neste contexto, a compra do F-35, que alguns setores continuarão a defender com argumentos técnicos legítimos, exige uma análise mais fria do que habitualmente lhe é aplicada. Os argumentos americanos a favor do F-35 assentam em três pilares que, examinados com atenção, se revelam ou exagerados, ou condicionados, ou simplesmente irrelevantes para a estratégia portuguesa.

O primeiro pilar é a interoperabilidade NATO. É verdade que o F-35 está profundamente integrado nas redes da Aliança, mas a interoperabilidade não exige homogeneidade de plataforma. A NATO opera hoje uma mistura de F-35, Rafale, Gripen, Eurofighter, F-16 e F-18 sem perda estrutural de capacidade conjunta. O argumento de que o F-35 é a única opção ignora que a invisibilidade total ao radar é uma ferramenta específica para a primeira vaga de um ataque ofensivo, algo que Portugal raramente faz de forma isolada. Para as missões nacionais de soberania e policiamento aéreo, um caça com boa gestão de assinatura radar e térmica, como o Gripen E, é mais do que suficiente. A NATO é uma orquestra: nem todos os aliados precisam de voar o avião mais invisível se isso significar sacrificar massa crítica de horas de voo e prontidão operativa no quotidiano.

O segundo pilar é o argumento da Champions League, a ideia de que Portugal tem de acompanhar a vanguarda tecnológica para não ficar relegado a uma segunda divisão. Para um país com orçamento limitado, a pergunta central não é qual é o melhor caça do mundo, mas qual o pacote de capacidades que maximiza a relação custo-eficácia para as missões reais. Policiamento aéreo, Quick Reaction Alert e apoio a missões da NATO e da União Europeia podem ser plenamente assegurados por caças de quarta geração avançada, com menores custos de operação e sem o peso orçamental de um sistema concebido para conflitos de alta intensidade entre grandes potências. A própria chefia da Força Aérea tem admitido que a substituição dos F-16 exigirá uma arquitetura mais ampla, novos radares e defesa aérea integrada, sob pena de o investimento ficar fragmentado. Comprar o avião topo de gama sem financiar o resto da arquitetura não resolve o problema: agrava o desequilíbrio.

O terceiro pilar é o argumento do bom negócio industrial. A realidade é que o retorno do F-35 está há muito capturado pelos grandes operadores que entraram cedo no programa. Portugal não negociaria contrapartidas industriais relevantes, mas sim o acesso a um sistema fechado. Há aqui uma dimensão que merece ser nomeada com clareza: a pressão para adquirir o F-35 insere-se num padrão de reforço da dependência europeia de equipamento norte-americano, que vai em sentido contrário à narrativa de autonomia estratégica europeia que Portugal afirma apoiar.

Quando um embaixador fala em subir a despesa de defesa para cinco por cento do PIB e deixa no ar a possibilidade de retaliações comerciais, a decisão transforma-se num teste de lealdade. Isso fragiliza a soberania de decisão e alimenta perceções de tutela externa. A isto acresce o custo total de ciclo de vida do F-35, que é estruturalmente superior ao de qualquer alternativa. Para Portugal, isso traduz-se em menos horas de voo e menos treino. Além disso, um país que opere F-35 não detém a soberania total sobre o seu software. A arquitetura fechada impede Portugal de integrar armas próprias ou sistemas nacionais sem autorização de Washington. A Turquia foi expulsa em 2019 e perdeu o acesso às aeronaves que cofinanciara, e embora Portugal não seja a Turquia, a arquitetura de dependência é substancialmente a mesma.

O Rafale francês é uma plataforma de elevado desempenho, mas é também um instrumento de política externa de Paris, vendido com pacotes diplomáticos que recriam dependências bilaterais de geometria variável. Para Portugal, com menos peso político e outra geografia, a assimetria desta relação é evidente. Ao comprar Rafale, compra-se Paris tanto quanto se compra o avião.

O Gripen E/F da SAAB emerge como a opção que melhor serve os interesses específicos de Portugal. Os custos de operação, estimados na ordem dos dez a quinze mil dólares por hora de voo contra valores que tendem a triplicar no caso do F-35, fazem sentido para o nosso orçamento. A filosofia operacional é próxima do F-16 para não sacrificar uma geração de pilotos na curva de aprendizagem. O F-16 original foi filho intelectual de John Boyd, que defendeu que agilidade e simplicidade valem mais do que peso e complexidade. O Gripen E, desenhado com estes princípios de leveza e versatilidade, é o seu herdeiro espiritual. Num mundo onde a guerra na Ucrânia demonstrou a vulnerabilidade de plataformas caríssimas perante enxames de drones e munições inteligentes, a agilidade do Gripen, capaz de operar a partir de uma estrada secundária enquanto o F-35 exige uma catedral logística, torna-se um argumento de sobrevivência real.

Mais importante ainda, a SAAB precisa de clientes europeus para negociar contrapartidas industriais reais. Portugal tem poder negocial efetivo para exigir a instalação de um centro de manutenção regional certificado, com a OGMA como operador principal, e transferência tecnológica real. O histórico da SAAB no Brasil é incomparavelmente mais generoso do que qualquer contrapartida que o programa F-35 alguma vez colocou sobre a mesa para um parceiro da nossa dimensão.

Mas o Gripen não é o horizonte final. É o primeiro ato de uma estratégia que precisa de ter o segundo ato definido: o GCAP, o Global Combat Air Programme, consórcio entre o Reino Unido, a Itália e o Japão para um caça de sexta geração. A qualidade industrial dos parceiros e a credibilidade do calendário distinguem o GCAP do seu rival continental, o FCAS, cujas negociações têm sido um exercício de orgulho nacional mútuo habilmente disfarçado de cooperação industrial. Portugal deveria candidatar-se já a parceiro industrial associado do GCAP, entrando onde a próxima geração está a ser desenhada. A aquisição do Gripen seria o sinal político que demonstra aos parceiros de Londres, Roma e Tóquio que Lisboa escolhe a autonomia estratégica quando outros hesitam.

Existe a opção de modernizar os F-16 existentes para o padrão Block 70/72. É a forma mais elegante de garantir que em 2040 Portugal continua a adiar a discussão da dependência do ecossistema americano, sem posição negocial em programas europeus e com uma indústria de defesa que não cresceu porque nunca foi obrigada a crescer.

O relógio de Washington já corre noutra escala. A janela para posicionar Portugal como ator comprometido com a arquitetura de defesa europeia está aberta, mas não ficará aberta indefinidamente. As decisões estratégicas que não se tomam em tempo útil reaparecem mais tarde, em piores condições e a preços que outros fixaram. Portugal já conhece esse guião suficientemente bem para não o repetir.