Os lesados das casas de banho

Que uma pseudo-autora da secção de auto-ajuda debite desinformação e repulsa por jovens trans, o problema é dela e de quem a decide publicar; agora as posições do PSD e CDS, partidos com assento parlamentar, são preocupantes.

Esta passada semana, o Observador brindou-nos com (mais) um artigo daquela malta de bem, conservadora e católica que vê em idas à casa de banho um bacanal digno de um filme do Alexandre Frota, em que crianças – algumas delas ainda sem caracteres sexuais secundários desenvolvidos – estão agora em risco de caírem para o lado negro da sexualidade depravada. Bem na linha editorial do jornal, portanto, e que claramente tem nos seus leitores fãs acérrimos.

No seu “Minorias de estimação” (um trocadilho inteligentíssimo e muito bem disfarçado, de quem alinha com a conversa da treta do “politicamente incorrecto”, mas depois tem de usar analogias óbvias para, implícita e sub-repticiamente, chamar de animais a estes jovens), Laurinda Alves discorre sobre como as casas de banho das escolas, à luz deste novo despacho, se tornarão agora “território de ninguém”, onde “a intimidade de qualquer um pode ser irremediavelmente devassada”.

Bem, eu não sei onde é que esta senhora andou na escola (onde quer que tenha sido, sugiro que revejam o programa de Português, porque as lições sobre pontuação passaram ao lado desta aluna), mas, nos estabelecimentos de ensino onde estudei, as casas de banho serviam maioritariamente para duas coisas: urinar e, em último caso (dada a falta de higiene gritante destes locais), defecar.

Aliás, acho que seria uma discussão muito mais relevante e proveitosa: a falta de condições nas casas de banho das escolas e o condicionamento que isso causa aos movimentos intestinais dos alunos. Se é para ter conversas de merda, façamo-lo declarada e construtivamente (mas sem substituir a questão da autodeterminação de género, ao bom jeito whataboutista da direita ultra-conservadora).

A autora continua, pois, no seu rol de idiotices, como “para te poder ajudar tens que baixar as calças” (este pessoal anda a ver demasiado porno, e do mau, como prova este post de hentai do amigo Gonçalves Pereira, deputado às direitas e de bem) ou a ideia de que, a cada dia, um aluno poderá escolher um nome pelo qual quer ser tratado. Super informativo, portanto, e com alto grau de correspondência à realidade. Felizmente, a mãe de uma criança transexual fez questão de “levar Laurinda à escola” e mostrar-lhe, por exemplo, que legislação protegendo minorias como os autistas já existe – a questão é o interesse e a dignidade que Laurinda vê nos autistas versus nos transgénero/transexuais.

Mas que uma pseudo-autora da secção de auto-ajuda se sinta na obrigação de debitar desinformação e repulsa por jovens trans, o problema é dela e de quem a decide publicar; agora as posições do PSD e, sobretudo, do CDS (e da sua fantástica JP), partidos com assento parlamentar, são preocupantes. Diz o CDS que este despacho aumentará os casos de bullying escolar. Que lógica fantástica. Por isso é que não deixamos pretos ou ciganos ir à escola – senão os incidentes de racismo e violência racial aumentavam. E também deve ser por isso que o Colégio Militar, uma instituição notoriamente segregada, não tem casos nenhuns de assédio aos mais diversos níveis.

Toda a gente sabe que isso só acontece quando se deixa trans usarem a casa de banho para o género com que se identificam (que, na realidade, nem é o que o despacho prevê, mas sim que estes não sejam obrigados a usar a casa de banho do género com que nasceram). E, analisando os impactos económicos da medida, podemos constatar que não será por aqui que a direita recupera a bandeira da responsabilidade fiscal e orçamental, visto que o despacho não implica quaisquer custos para as escolas. É mero preconceito, condizente com a figura do macho predador e perpetuada, curiosamente, pelos mesmos que tão frequentemente dizem que um “não” nem sempre quer dizer não.

Por mim, a solução ideal passaria sempre por casas de banho unissexo: são mais eficientes (dadas as diferenças crónicas no tempo de espera entre as casas-de-banho masculinas e femininas, que assim se diluiriam), facilitam a formação de adultos menos inibidos sexualmente e com melhor capacidade de distinguir o que é sexual do que, partilhando os mesmos canais, é uma função excretora (algo que esta malta das petições anti-despacho parece confundir – será que é porque a sua vida sexual é uma nulidade?) e, com sorte, ainda seria uma forma de fazer com que os homens tivessem mais cuidado em não deixar o tampo da sanita todo respingado. Mas isso sou eu, que, quando vou a uma casa de banho pública, me importo mais com a higiene de quem lá vai do que com a sua genitália.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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