Os media entre Cila e Caríbdis

As propostas de financiamento público não são consensuais no próprio meio e há razões válidas para duvidar que possam ser o caminho ideal, mas o setor precisa de uma visão sustentável a médio e longo prazo.

Na sessão de encerramento da conferência “Financiamento dos Media”, promovida pelo Sindicato dos Jornalistas, Marcelo Rebelo de Sousa lançou o aviso: “Ou a nossa comunicação social se encontra em crise ou não se encontra. Eu penso que se encontra em crise económica e financeira, de capacidade de inovação. (…) Quem pensar o contrário terá que demonstrar que os números dos últimos exercícios são bons, que representam a recuperação da crise financeira, que há condições sustentadas de investimento, de pagamento de dívidas acumuladas e de planeamento a médio e longo prazo.”

E aqui não há como desmentir. O dedo na ferida foi posto. Só quem não tem acompanhado minimamente a evolução dos media, não tem assistido com crescente preocupação ao elevado risco financeiro a que se têm submetido os grandes grupos que controlam a imprensa em Portugal.

A aquisição da TVI pelo grupo Cofina vai testar a resiliência e a capacidade da imprensa atual de fazer frente a monstros corporativos que tudo devoram – um negócio que não encontrou oposição por parte da ERC, por esta não considerar que “coloque em causa os valores do pluralismo e da diversidade de opiniões”. Só quem não conhece o modus operandi do grupo Cofina pode estar descansado perante o grau de ingenuidade (deliberada?) dessa declaração.

O problema não se limita à concentração da Cofina e Media Capital, com o panorama a evoluir negativamente, culminando nas notícias sobre a instabilidade que se vive na Global Media com atrasos de pagamentos e falta de transparência nas opções dos investidores. Têm vindo a público reestruturações (sinónimo de despedimentos coletivos) que têm sujeitado os jornalistas a forte pressão e precariedade, com pré-avisos de greve.

Temos assistido a este filme demasiadas vezes nos últimos anos, que não só afeta a qualidade do jornalismo que se faz em Portugal, como o torna refém do tal “otimismo” exacerbado de que fala o Presidente da República. A atividade que exerci anteriormente no meio editorial português levou-me a contactar com numerosos jornalistas. Ouvi muitas histórias sobre as condições difíceis em que desenvolvem a sua atividade, a falta de respeito que por vezes há pelo seu trabalho, a falta de independência.

Marcelo Rebelo de Sousa referiu também no seu discurso várias soluções que passam por financiamento público para assegurar um jornalismo mais sólido e independente. Todos concordamos que agora é o momento de desenvolver novas soluções e de correr riscos. Não têm faltado novos projetos a despontar e a mostrar o caminho para o futuro do jornalismo. Cito, a título de exemplo, o projeto independente “Fumaça”, mas é essencial encontrar meios de financiamento sustentáveis na era digital, com o inerente e gradual declínio do papel.

As propostas de financiamento público não são consensuais no próprio meio e há razões válidas para duvidar que possam ser o caminho ideal a seguir, mas o que é certo é que o setor precisa de uma visão sustentável a médio e longo prazo, ou poderá ser tarde demais.

Tal como Ulisses, herói da Antiguidade Clássica, teve de enfrentar terríveis obstáculos na sua jornada de regresso a Ítaca, em que mal sobreviveu, também os media têm de ultrapassar de uma vez por todas a travessia entre Cila e Caríbdis de modo a chegarem a porto seguro.

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