Os milagres AC/DC

Temo que com o fim das moratórias, o excesso de créditos em incumprimento, a banca em grandes dificuldades, a falta de planeamento legislativo e fiscal para apoiar a retoma da economia, empresas e famílias, o descalabro seja ainda maior.

Já ocorriam milagres antes de Cristo! E depois de Cristo continuou a haver milagres. Para quem não acredita nestes factos extraordinários ou inexplicáveis pelas leis da natureza e que são atribuídos a causas divinas ou sobrenaturais é mais difícil conviver com tais factos.

Ora, esta conversa vem a propósito do suposto milagre operado pelo actual Governo Antes da Covid (A/C) e Depois da Covid (D/C). A/C, e por força das cativações, o nosso desempenho financeiro enquanto país era tratado como um milagre e Centeno era apelidado de Cristiano Ronaldo, o que, nesta terra de futeboleiros, é sinónimo de anjo milagreiro. D/C e após a primeira vaga, o Governo operou novo suposto milagre através de um alegado robusto e sobranceiro Serviço Nacional de Saúde e de anunciados e pouco efectivos apoios à economia.

E eu que não acredito em milagres, nestes é que não acredito mesmo! Ora, para o desabar da economia do país e o crescimento insustentável do desemprego bastaram dois meses de paragem da economia, o que diz muito sobre a tal solidez milagreira A/C.

E D/C, o embuste é agora facilmente demonstrado.

Tivemos um ano para nos prepararmos para a segunda, terceira e quarta vagas, sabíamos que o inverno vinha aí, sabíamos, ou devíamos saber, que precisávamos de reforçar o SNS e que, por preconceito ideológico, não contratámos com os sectores privado e social de saúde e nada fizemos para nos prepararmos, certamente confiantes, agora sim, num milagre!

Acontece que os milagres não existem e desta feita o que aconteceu foi uma autêntica desgraça bíblica.

Portugal é hoje o segundo país no mundo com mais mortes por milhão de habitantes e o primeiro país do mundo com mais novos casos por milhão de habitantes. A culpa é, segundo o Governo milagreiro, dos portugueses, de cada um de nós, que não respeita as regras da DGS, o distanciamento social, a higiene das mãos e o uso da máscara!

A culpa não é, não pode ser, dos divinos governantes, a quem não se pode exigir, com tempo e antecedência de um ano, o reforço do Serviço Nacional de Saúde, sobretudo das unidades de cuidados intensivos, a protocolização com o sector privado e social da Saúde, a implementação eficiente do plano de vacinação dos mais idosos (os que morrem!) e, “last but not the least”, os apoios à sobrevivência da economia e das famílias.

A descoordenação governamental, a ausência da ministra da Saúde nesta fase caótica do SNS (já na inauguração da vacinação lá estava ela toda milagreira…), as inenarráveis e ininteligíveis comunicações da DGS, as orientações irracionais e inexplicáveis a propósito das regras e suas excepções, os confinamentos desconfinados e o atraso estrutural – e deficiente – dos apoios à economia conduzem a este descalabro que já nem um milagre poderia sanar.

Temo que com o fim das moratórias, o excesso de créditos em incumprimento, a banca em grandes dificuldades, a falta de planeamento legislativo e fiscal para apoiar a retoma da economia, das empresas e das famílias, essa desgraça ainda se torne pior.

Vejam o “socialista” Biden e tirem lições. Tal como Trump fez, ele vai apoiar a economia, as empresas e as famílias, aumentando a massa monetária (quantitative easing). Não vai investir, como cá os milagreiros anunciam, na “modernização”, na “digitalização” da função pública, no crescimento da despesa pública corrente, nas energias renováveis e no hidrogénio, em obras inúteis e faraónicas ou na nacionalização de empresas em situação económica ruinosa!

Para os agnósticos, ateus e filisteus é uma boa notícia. Os milagres não existem…

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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