Os olvidados

Impressiona-me que gente que estudou nas melhores universidades nacionais e internacionais padeça de uma falta de memória digna do mais avançado doente de alzheimer.

Portugal devia ser um caso de estudo. Não deve haver no mundo civilizado país algum onde exista tanta gente de responsabilidade com tão fraca memória. Desde gestores das maiores empresas nacionais a administradores de bancos, terminando nos responsáveis pela supervisão (cujos dois mais recentes governadores cobrem os últimos 20 anos de governação do Banco Central).

Não me impressiona Joe Berardo. Não me impressiona que um “self-made man”, com a 4.ª classe, não se saiba comportar na casa da democracia. É um “novo-rico” e comportou-se à altura. O que me impressiona, verdadeiramente, é que gente que estudou nas melhores universidades nacionais e internacionais – desde a Sorbonne a Bristol, passando pelo University College of London, Harvard ou pelo inevitável Insead – padeça de uma falta de memória digna do mais avançado doente de alzheimer.

Fica a nota para quem queira prosseguir os estudos: na vida talvez mais valha ser “bronco” que um “desmemoriado encartado”.

Não, não é natural ou expectável que as pessoas se lembrem de tudo. Porém, é deveras curioso que ninguém (das dezenas que compõem os vários conselhos de administração das várias instituições envolvidas) tenha memória das principais operações envolvendo a banca portuguesa nos últimos 20 anos.

Caramba! Um empréstimo de 350 milhões sobre o qual se pediram esclarecimentos e documentos, destinado a comprar uma percentagem significativa do maior banco privado português e o único comentário é “não me lembro”?!

Se assim o é de facto então, e só por isso, deveriam ser presos. Porquê? Ou por serem mentirosos, ou por serem negligentes. Não há um apontamento, uma nota sequer no moleskine que ajude a explicar ou a avivar a memória?!

É extraordinário que, de tempos a tempos, algumas destas pessoas dêem entrevistas de vida onde nos relatam a lembrança de comer um gelado com o avô ou de brincar com os vizinhos no pelourinho da vila, porém, sobre operações de milhares de milhões de euros… nada. Nem um resquício de memória ou uma ténue lembrança. É impressionante! Tudo se olvida mal o assunto meta banca. Outro sinal claro de demência.

E é aqui que está a luta a travar. Por mais estranho que possa parecer, a mim, pouco ou nada me interessa o Berardo. A mim o que me interessa é que a “corja” de “olvidados dementes” do BPN, do BES, do BCP, da CGD e do Banco de Portugal seja definitivamente arrumada e afastada, ao invés de estar constantemente a ser promovida e reconduzida por não fazer e, sobretudo, por não se lembrar de qual a sua função no cargo que ocupa!

Enquanto gente desta por lá gravitar haverá sempre Berardos, Vasconcellos, Rendeiros e outros que tais a comer da gamela. Venham gestores estrangeiros se for preciso, mas feche-se o tasco. É que encerrada a “cozinha”, acaba-se a clientela!

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

Recomendadas

Marxismo cultural ‘loves’ mercado livre

Todos os processos de transformação sociocultural, apesar de terem histórias próprias e múltiplas causas, têm no mercado livre um grande amante.

Sustentabilidade

Alcançar um desenvolvimento sustentável é um interesse comum de todos nós, pelo que é também de igual responsabilidade. E gestos simples podem ser um importante contributo.

Que Portugal para o futuro?

Se todas as crises geram oportunidades, para já não se vislumbra nenhuma ideia do que se pretende para o país. É o tempo de os líderes mostrarem o que valem.
Comentários