Pagaqui: “Os pagamentos em numerário vão desaparecer”

O CEO da Pagaqui, João Barros, controla uma rede de 3.000 pontos de venda no país e vai lançar este trimestre uma “carteira digital”. Já assinou um contrato para entrar no mercado brasileiro.

A Pagaqui, empresa portuguesa de serviços de pagamentos e carregamentos, vai lançar uma “carteira digital” e ‘voar’ até ao Brasil. O presidente executivo da empresa, João Barros, explica que quer alargar as funcionalidades desta wallet a empréstimos de curta duração (os microcréditos) e a poupanças de pequena dimensão.

Para isso, vai estabelecer uma parceria com um banco e com duas seguradoras. Com uma estratégia afinada para o que considera ser o passo seguinte na evolução do mercado financeiro, o empresário não tem dúvidas: “A tendência é os bancos comprarem fintechs”.

Porque é que escolheram o Brasil?

Por uma questão de dimensão. O mercado brasileiro é muito específico neste setor porque 50% dos intervenientes nas transações não têm uma conta bancária e os pequenos retalhistas não têm tecnologia, subcontratam-na a parceiros. Em Portugal, temos sistemas próprios, integrados com os da Vodafone, e gerimos um ponto de venda (papelarias, tabacarias, mini mercados, bombas de gasolina…). Só temos dois intervenientes. No Brasil, a cadeia de valor da cobrança é mais extensa: há a processadora, as integradoras, as distribuidoras e os pontos de venda. O custo de cobrança é muito superior porque é preciso alimentar todos os elos. Se conseguirmos passar de cinco players para três o custo diminui.

Quem são os grupos brasileiros com quem estão a negociar a compra de uma posição maioritária?

Não os podemos identificar porque os negócios não estão fechados. Têm em conjunto 61 mil pontos de venda e empregam mais de 700 colaboradores. Em termos de faturação, estamos a falar de cerca de 300 milhões de euros. Mesmo que não se evolua para a aquisição vamos sempre fornecer-lhes tecnologia. Já foi assinado o primeiro contrato. Acho que vai haver seis meses de transferência de tecnologia e depois é um fio recorrente sobre toda a atividade. Temos expectativas de que tenha um impacto nas contas entre 1,5 milhões de euros e dois milhões de euros. Obriga-nos ao investimento de ter três pessoas no Brasil.

O que é a “carteira digital”, que será lançada ainda neste trimestre?

É uma aplicação 100% desenvolvida pela Pagaqui que vai servir um segmento da população que hoje em dia é servido pelos bancos. Os bancos têm as melhores soluções digitais, como os homebankings, mas têm custos de estrutura tão pesados que não lhes permitem fazer comissões mais baixas. Aquilo que vamos fazer é semelhante ao que faz a Revolut e a N26. Tudo o que é necessário é ter uma conta de pagamentos na Pecunia Cards, uma instituição de moeda eletrónica espanhola. Trata-se de um cartão de débito pré-pago, que é registado e é aberta uma conta online.

Este porta-moedas digital vai permitir empréstimos de curta duração abaixo dos 200 euros a 30 dias e serviços de poupança. Como irão fazer isso? Têm de estar associados a um banco.

Vamos fazer uma parceria com um banco português para o serviço do “Emprestaqui”. Acima de tudo queremos estar nos microempréstimos (microcrédito). Por exemplo, para uma pessoa que precise de um crédito de 30 dias para pagar uma conta da luz, da água… A nossa plataforma vai permitir essa funcionalidade. Há o estigma de que as pessoas não pagam o microcrédito, mas é ao contrário: é onde há menos incumprimento. Já o “Poupaqui” não é mais do que permitir poupanças programadas através de seguros de capitalização. É uma parceria que estamos a estudar com duas seguradoras, para permitir fazer poupanças programadas de pequenos montantes. Por exemplo, programar uma poupança de três euros/semana e de modo automático subscrever um seguro de capitalização. Trabalhamos um segmento que, tipicamente, nem sequer os bancos querem porque é caro e não é o seu ADN. Na prática, não concorremos, somos complementares.

Qual é a área mais forte da Pagaqui?

A cobrança de bilhética de transportes, que já representa 35% do nosso negócio. Carregamos o cartão Lisboa Viva, temos um acordo com o Metro do Porto e uma parceria com a Aveiro Bus e a Rede Expresso. No futuro, queremos disponibilizar muitos desses serviços na nossa carteira digital. Vamos passar a poder carregar os títulos de transporte na app ou carregar o Netflix. Os pagamentos em numerário vão desaparecer. Já está a acontecer na Europa, excepto na Alemanha, que é o único país que faz ainda pagamentos em dinheiro.

Artigo publicado na edição 1973, de 25 de janeiro, do Jornal Económico

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