A ofensiva relâmpago que derrubou o regime de Bashar al-Assad cumpriu finalmente o objetivo da Primavera Árabe de 2011. Que não restem quaisquer dúvidas: Assad destruiu o seu país, oprimiu a sua população, aprisionou, torturou e sentenciou à morte milhares de opositores e retirou toda a esperança aos sírios, com o objetivo de manter intacto o regime que herdou do seu pai, Hafez al-Assad. As imagens chocantes da libertação de prisioneiros na prisão de Sednaya mostram um nível de desumanidade e crueldade praticado que é indefensável e só merece
repúdio.

Contudo, são legítimas as preocupações sobre o futuro da Síria, considerando que o maior grupo da oposição de rebeldes é liderado por antigos combatentes da Al-Qaeda e Daesh que cortaram ligações com as organizações terroristas. Agora, optam por uma abordagem mais
pragmática, estando cientes de que qualquer imposição extrema da lei islâmica só irá conduzir a falta de legitimidade, perda de apoio da população e isolacionismo.

Uma imensa ansiedade internacional em torno da Síria tem invocado paralelos com o Iraque e Líbia, países que mergulharam em violência após a queda dos regimes de Saddam Hussein e Kadafi. É verdade que a Síria ainda não está a salvo desse destino, mas outros caminhos podem ser trilhados com cautela que evitem a guerra, havendo entendimento entre todas as fações locais e estando salvaguardados os
direitos das minorias como os curdos, cristãos e drusos que vivem no território.

No entanto, há muitos anos que a guerra civil síria passou a ser uma guerra por procuração. Na realidade, era uma guerra entre Assad e os seus aliados russos e iranianos (e Hezbollah) contra a oposição síria apoiada por uma coligação de forças que incluía os EUA, Turquia, Golfo
Pérsico e países europeus. E numa jogada absolutamente ilegítima e inaceitável, Israel aproveitou-se da vulnerabilidade do momento para invadir para “todo o sempre” os Montes Golã, anexados à Síria na Guerra dos Seis Dias.

Neste momento, também está em jogo o destino de milhões de refugiados sírios. Muitos desejam regressar, mas os países que estão a conceder asilo aos refugiados não podem simplesmente suspender os processos sem garantias absolutas de que os cidadãos podem regressar em segurança. E essa segurança ainda não é garantida. A Síria está a viver os primeiros dias da queda de um regime, é preciso tempo para
compreender se os sírios terão a oportunidade de decidir o seu próprio futuro.