Outra vez, não!

Benjamin Franklin, quando passou uns meses na Grã-Bretanha como emissário e se aborreceu por nada acontecer, escreveu uma ‘fake news’: o Rei da Prússia deportava para lá bandidos, vadios e assassinos. Resultado? Deu confusão.

O ano de 2020 vai ficar como o ano do bizarro. Não por causa da Covid, essa foi só uma no meio de muitas coisas surpreendentes. Para começar, foi o ano em que Wolf Cukier, estagiário da NASA de 17 anos, descobriu o planeta TOI 1338b, sete vezes maior que a Terra e que orbita duas estrelas a 1.300 anos-luz de nós. Foi também o ano em que o Supremo Tribunal da Irlanda decidiu que o pão das sanduíches da cadeia de fast-food Subway não era pão porque tinha 10% de açúcar. Num claro desafio à autoridade, a cadeia fez uma declaração: “o nosso pão é pão.”

O Turismo da Islândia criou em julho o programa “Let It Out”, a terapia de grito (não de grupo) para gente confinada: era gravar um grito, no tablet ou telefone, e enviá-lo, que eles faziam-no ecoar na ilha. Podíamos ouvir-nos gritar na Islândia, qual Tarzan, de graça e sem sair do sofá da sala. É de gritos!

Para quem gosta de mistérios, 2020 foi um ano extraordinário. A partir de julho os americanos receberam pelo correio sementes provenientes da China. No outono estavam identificadas mais de 5.000 espécies diferentes de sementes, vindas de 40 países. Outro mistério foi o dos monólitos que apareceram por uns quantos lados, do Utah à Roménia, passando pela Califórnia. Apareciam e desapareciam em poucos dias, sem se saber como. Foi talvez um fã do “2001 Odisseia no Espaço”!

Se veem nisto a marca dos tempos, desiludam-se, coisas estranhas há à séculos. Quando Calígula decidiu invadir as ilhas britânicas, fez os soldados marchar até à Mancha; quando chegou, mandou-os apanhar conchas e voltar para casa. Em finais do século XVIII uma carta anónima revelou um edital do Rei da Prússia a deportar os bandidos, vadios e assassinos para a Grã-Bretanha para melhorar a raça inglesa, o que causou confusão. A fake news foi escrita por Benjamin Franklin, quando passou uns meses na Grã-Bretanha como emissário e estava aborrecido por nada acontecer.

No funeral de Andrew Jackson, em 1845, tiveram que levar para casa o seu papagaio porque o diabo do animal não parava de praguejar. John Sedgwick, general da União na Guerra da Secessão, morreu a 9 de maio de 1864, na batalha de Spotsylvania; as suas últimas palavras foram “a esta distância não acertam num elefante”, depois levou um tiro abaixo do olho esquerdo. Na última vez que o Liechtenstein esteve em guerra, em 1886, nenhum dos seus 80 soldados ficou ferido, e regressaram a casa 81: um italiano veio à boleia.

Em 1895 havia em todo o Estado do Ohio dois carros, que chocaram, um contra o outro. O atentado que iniciou a Primeira Guerra Mundial começou por falhar porque o conspirador não sabia que a bomba levava 10 segundos a detonar, e fez explodir o carro que vinha atrás; tentou suicidar-se com uma cápsula de cianeto que era velha demais e falhou de novo. Então, atirou-se a um canal que tinha menos de um metro de água. Depois disto, falem-me de vacas voadoras.

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