Panteão dos deuses do humor: Bruno Nogueira, Herman José, Raúl Solnado

A questão não é, nunca foi, se a rádio morreu, se a televisão já era ou se as redes sociais são o futuro, a questão é o humor e como nasce, sempre novo e diferente, mesmo em alturas de medo.

Não há como escapar. “Como é que o bicho mexe?”, de Bruno Nogueira, fez história e a season finale (é assim que se diria se fosse no Netflix) foi épica: perto de 200 mil pessoas ligadas ao Instagram a celebrar o Natal, porque o homem assim o quis.

Durante duas horas apareceram amigos, apareceu o Cristiano Ronaldo às escuras (“deixa-me só ligar o candeeiro do sal dos Himalaias” – isto não se inventa), apareceu o rabo do Albano Jerónimo e a pila do João Quadros, apareceram anónimos com luzes de natal nas suas casas em pleno maio, apareceram Drag Queens numa rotunda em Rio Tinto, apareceu um triplo salto de Nelson Évora nos corredores do Coliseu.

Bruno Nogueira, conduzido por Nuno Markl, criou um programa nas redes sociais em tempos de Covid-19 que provocou um engarrafamento bem real à meia-noite na avenida marginal e na A5, ao ser seguido por centenas de fãs.

Durante dois meses, Bruno Nogueira respondeu à pandemia fazendo bem o que toda a gente estava a tentar fazer: diretos no Instagram. Noite após noite sentimos que não estávamos sós.

Houve momentos emocionantes, como quando o artista plástico Vilhs esculpiu um mural de Zeca Afonso ao som de “Grândola” para celebrar o 25 de Abril, a que se juntou a atriz de 91 anos Eunice Muñoz. Houve momentos memoráveis, como ouvir a rapper Capicua declamar poemas de Sérgio Godinho e Sophia de Mello Breyner, ouvir Nuno Lopes cantar e tocar “E Depois do Adeus”, ou conhecer a rádio do Polo Norte. Nesses dois meses, os lives do Instagram de “Como é que o bicho mexe?” tiveram, todas as noites, uma audiência superior a 60 mil pessoas, números que rivalizam com a audiência da RTP3 ou da TVI24.

Nesses meses fez-se arte – arte com sentido crítico –, recolheram-se fundos para as pessoas em situação de sem-abrigo, denunciaram-se as situações dramáticas dos profissionais da cultura que de um momento para o outro ficaram sem nada e sem apoio. Recordou-nos a importância da cultura nas nossas vidas e que vale bem mais que 1% num qualquer Orçamento do Estado.

Quando comentava o feito de Bruno Nogueira com amigos, recordámos logo a pedrada no charco que foi o “Tal Canal” de Herman José em 1983 ou o épico último episódio da “Roda da Sorte” em 1994, em que Herman destruiu o cenário com uma caçadeira enquanto Cândido Mota chorava a rir. No Facebook, um amigo (obrigado Vítor) lembrava que a frescura de Nogueira tinha eco no disco “Solnado que vais p’ra guerra”, gravado numa sessão do Teatro Maria Vitória em 1962, em plena ditadura.

Solnado na rádio, Herman na televisão e Bruno Nogueira no Instagram. Só a plataforma mudou porque em todos se viu a marca do génio. A questão não é, nunca foi, se a rádio morreu, se a televisão já era ou se as redes sociais são o futuro, a questão é o humor e como nasce, sempre novo e diferente, mesmo em alturas de medo.

No meio da pandemia, Bruno Nogueira fez a revolução no Instagram, inventou o Natal e entrou no panteão dos deuses do humor em Portugal, onde já estavam Herman José e Raúl Solnado.

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