Para onde foram os nossos votos?

O destino dos votos obtidos pelos diversos partidos em diferentes eleições da mesma ordem é, ou devia ser, uma prioridade na análise dos estrategas dos partidos e dos diferentes tipos de especialistas que estudam e analisam os resultados eleitorais.

Como explicar a votação em 6 de outubro através das sondagens

  1. As transferências de voto entre 2011 e 2015

O destino dos votos obtidos pelos diversos partidos em diferentes eleições da mesma ordem é, ou devia ser, uma prioridade na análise dos estrategas dos partidos e dos diferentes tipos de especialistas que estudam e analisam os resultados eleitorais. A votação no PSD a 6 de outubro, e a evolução da tendência de voto apresentada em diversas sondagens, foi motivo de controvérsia e muito comentário, desnecessário se todos os dados existentes fossem relacionados. Também a eleição de representantes de três novos partidos (Chega, Iniciativa Liberal e Livre), e o reforço eleitoral de outro (PAN), eram previsíveis tendo em atenção toda a informação disponibilizada em várias sondagens.

A maioria absoluta obtida pelo PSD e pelo CDS em 2011 é um marco importante para se compreender o que se viria a passar em termos de transferências de voto nas legislativas seguintes e, mais tarde, em 2019.

Em 2011, no contexto da intervenção externa, os eleitores ‘castigaram’ o partido do governo, o PS, escolhendo maioritariamente aqueles dois partidos que tinham concorrido separadamente. O PSD obteve 38,7% dos votos e o CDS 11,7%.

Em 2015, o PSD e o CDS concorreram em coligação, a PàF, obtendo 36,9%, ganhando as eleições, mas perdendo cerca de 820 mil votos. A sondagem pré-eleitoral da Aximage forneceu-nos pistas para procurar o destino desses votos, bem como dos que foram transferidos para a coligação e que não eram originários de qualquer dos partidos que a formavam. Esta análise, que apresenta o saldo entre votos ganhos e perdidos, deve ser lida no contexto do voto contra o PS de alguma esquerda nas eleições de 2011, bem como da contestação social que o governo de Passos Coelho sofreu ao longo de quatro anos.

Assim, o PSD e o CDS perderam 354 mil votos de 2011 para a abstenção, 143 mil para o PS, 138 mil para o BE (suportando a sua grande subida e justificando a votação no PSD em 2011), 15 mil para a CDU e 76 mil para Outros, Brancos e Nulos (contribuindo para o aumento da votação no PAN).

  1. Das europeias à rentrée política

As principais críticas que se ouviram na campanha eleitoral para as legislativas estavam relacionadas com o baixíssimo ponto de partida do PSD. Tal só pode ter acontecido por falta de memória. É preciso não esquecer o que se tinha passado em 2015 e o que aconteceu há menos de seis meses nas europeias.

No barómetro Aximage realizado entre 3 e 8 de maio medimos as intenções de voto no PSD nos 27,6%. A atuação de Rui Rio era avaliada de forma negativa (7,4 pontos em 20) e, entre todos os líderes partidários avaliados, só Assunção Cristas tinha avaliação mais baixa. Na sondagem final antes das eleições, com trabalho de campo entre 16 e 20 daquele mês, verificou-se uma descida dos dois maiores partidos, com o PSD a ficar nos 25,4% de intenção de voto.

Mas, chegado o dia das eleições, o PSD obtém 21,94% dos votos. Como explicação apontava-se o facto de serem eleições de segunda ordem, muitas vezes utilizadas pelos eleitores para mandar recados. Poderá ter sido o caso com o PSD de Rui Rio, o que faria prever um regresso de grande parte desse eleitorado ao partido, numa eleição de primeira ordem como são as legislativas.

Nas sondagens publicadas em junho, aquilo que podia ter sido interpretado como um recado, parece ter-se consolidado numa crítica de fundo e o PSD obtém os seguintes resultados: Aximage 23,1%, com Rio a atingir a nota de 6,2, mais baixa de sempre; ICS-ISCTE 23,5%; Eurosondagem 24%; e Pitagórica 21,6% já em Julho, com o PS a caminhar para o que parecia ser uma maioria absoluta, em 43,2%.

  1. Setembro, a greve dos motoristas, os vários casos judiciais, a campanha e os debates

A greve dos motoristas de matérias perigosas terminou em 18 de agosto e a 7 de setembro, depois de negociações, foi desmarcada aquela que estava marcada para ter início no dia seguinte.

Casos judiciais – Depois de várias notícias sobre as ‘golas inflamáveis’ e da demissão de um adjunto do gabinete do secretário de Estado da Proteção Civil, este é constituído arguido a 18/9, demitindo-se ainda nesse dia.  A 26 de Setembro sai a acusação relativa ao roubo e recuperação das armas de Tancos, com quatro crimes imputados ao ex-ministro da Defesa Azeredo Lopes.

Os debates entre os líderes dos partidos com assento na Assembleia da República vão de 2 a 23 de setembro. António Costa estreia-se a 2 com Jerónimo de Sousa. Rui Rio estreia-se a 5 com Assunção Cristas. António Costa e Rui Rio debatem a 16 na televisão e a 23 na rádio. Os seis candidatos debatem todos a 18 na rádio e a 23 na televisão.

  1. Sondagens de setembro

A Aximage, na sondagem realizada entre 1 e 8 de setembro ainda não recolhe o impacto de nenhum dos novos inputs da campanha, com o PS nos 38,4% e o PSD nos 20,6%. Contudo, Rio sobe 1,4 valores na avaliação do desempenho para 8,4, o que pode ser explicado pela sua presença pública começar a ser sentida desde finais de agosto. Nessa mesma sondagem, avaliando-se os vários intervenientes nas negociações entre sindicato dos motoristas de matérias perigosas, patrões e Governo, António Costa e Pedro Nuno Santos são os únicos que obtêm nota positiva, respetivamente 11,5 e 10,3 numa escala de 0 a 20. E o PS termina uma escalada que tinha começado em junho (35,6%), para os acima referidos 38,4%. E com a avaliação do desempenho de António Costa a subir no mesmo período, de 10,3 para 11,5.

Neste início de setembro a Intercampus, com o PSD nos 23,6%, e a Pitagórica e a Eurosondagem, com aquele partido nos 23,3%, realizaram as suas sondagens dos “30 dias antes das eleições”.

Ainda na mesma sondagem da Aximage foi estudada a atração dos líderes partidários (votaria sempre – nunca votaria num determinado líder partidário), em que Costa é o único a obter um saldo positivo. Rio, apesar de ter uma avaliação negativa, é o segundo melhor classificado pelos inquiridos.

Quando se analisam as transferências de voto nesta sondagem, constata-se que, dos eleitores PàF 2015, apenas 55,7% tinham, no início de setembro, intenção de votar PSD e 13,2% CDS. Ou seja, apenas 68,9% dos eleitores PàF estavam disponíveis para votar nos partidos que originaram essa coligação. 9,2% declaravam pretender abster-se, 9,9% votariam PS, BE e PAN (7,2%, 1,5%, 1,0%), 5,6% votariam nos novos partidos (Livre e Aliança 0,5%, Chega 2,6%, Iniciativa Liberal 2,0%) e Outro Partido, Branco e Nulo teriam a preferência de 4,1%. Também era nestes eleitores que, a par com os da CDU em 2015 (2,9%), se encontravam nesta sondagem os indecisos em quem votar (2,6%).

O trabalho de campo da sondagem publicada no final da semana anterior às eleições decorreu entre 21 e 25 de setembro e já refletiu quer os debates entre os líderes, quer marginalmente o caso de Tancos. O PS cai para 37,4% e o PSD, em menos de um mês, sobe 4,6 pontos, para 25,2%. Rio passa a ter avaliação de desempenho positiva (10,5), o que nunca acontecera anteriormente. Nesta sondagem, onde aparecem com mais de 1,0% das intenções três dos novos partidos (Livre 1,6%, Chega 1,5% e Iniciativa Liberal 1,2%), verificamos a rejeição por parte dos eleitores, quer da maioria absoluta (apenas 21,2% dos inquiridos revela simpatia por essa solução) quer por um governo de maioria simples, estabelecendo acordo caso a caso com outros partidos, sendo que a solução preferida era a de um governo de coligação (33,7%).

Um terço dos inquiridos nesta sondagem consideraram que a importância dos debates era grande para a decisão de voto, enquanto 38,4% consideraram que a importância era média. Apenas um quarto pensava que a importância dos debates era pequena (17,9%), ou nenhuma (7,5%).

De uma forma global, António Costa foi considerado vencedor do conjunto de todos os debates, com um saldo (melhor-pior) de 19%. Rio aparece próximo, com 17%, e o outro líder com nota positiva é Catarina Martins, já a alguma distância (cinco pontos).

Contudo, quer no último debate entre os dois, na rádio, quer no debate televisivo a 6 do mesmo dia, é Rui Rio o vencedor, ainda que, em ambos os casos, por margem mínima, sem qualquer expressão do ponto de vista estatístico (38,7%-37,9% na rádio, e 31,2%-30,9% na televisão).

A tracking poll diária da Pitagórica inicia a recolha de dados no dia seguinte ao último debate e, com certeza pelas mesmas razões identificáveis na sondagem da Aximage, o PSD aparece sempre a subir nas intenções de voto (de 23,3% para 26,6% de dia 12 para dia 20) até ao dia 23. O Livre e a Iniciativa Liberal também começam a aparecer com intenções de voto superiores a 1,0% a partir de 24.

Em relação às transferências de voto nesta sondagem constata-se que ainda não estava consolidada nos eleitores da PàF em 2015 a decisão de voto em 2019. Nesta altura, o partido mais castigado pelos inquiridos era o CDS, que perdia cerca de 3% do voto PàF entre a sondagem do início do mês e esta. Destes eleitores, 13,5% apontavam a abstenção como destino do voto, 4,4% indicavam o PS, enquanto o BE e a CDU somados só contariam com 1,2%. Já o PAN era referido como podendo receber 3,8% dos votos da coligação. A Iniciativa Liberal (2,8%), a Aliança (1,3%), o Chega (0,6%) e os OBN (4,7%) eram os restantes potenciais recetores do voto PàF 2015 e 1,6% estavam indecisos.

É o conjunto destes dados que deve ser estudado para compreender que o PSD partiu de uma base muito baixa e, por um conjunto de ações identificáveis, criou condições para a sua recuperação para níveis que tinha em maio, antes das eleições europeias. E, também, que três novos partidos começavam a posicionar-se nas escolhas dos eleitores, com possibilidade de eleger deputados.

  1. Sondagens da última semana

O “caso” de Tancos tem desenvolvimentos, com a acusação ao ex-ministro da Defesa a coincidir com o início do trabalho de campo da última sondagem da Aximage. Nesta, mais de um em cada quatro inquiridos considera que o “caso de Tancos” vai ter influência muito grande ou grande no voto. A par da CDU, são aqueles que dizem que irão votar PSD que mais apontam essa hipótese (37,1% para os eleitores CDU e 34,8% para os PSD, quando o valor total é de 26,0%). Quanto aos partidos que seriam mais beneficiados e mais prejudicados por este caso, o saldo entre as duas situações apontava nitidamente para um maior prejuízo do PS, segundo 76,3% dos inquiridos, e um maior benefício para o PSD, de acordo com 56,7% daqueles entrevistados, sendo estas opiniões transversais a todo o eleitorado. Ainda de acordo com a maioria dos inquiridos (50,8%), o líder do PS sabia do que se tinha passado com a recuperação das armas. Neste caso, só os votantes PS (23,5%), BE (42,7%) e CDU (41,9%) estavam abaixo da média nacional, sendo os votantes do PAN aqueles que mais acreditavam nesse conhecimento (80,3%).

A avaliação dos líderes mantém como únicos com nota positiva António Costa (mesma nota da sondagem anterior), Catarina Martins e Rui Rio (ambos com pequenas descidas, irrelevantes do ponto de vista estatístico). Na escolha para primeiro-ministro, António Costa manteve o apoio em relação à última sondagem (46,8%) e Rui Rio tem uma pequena subida (de 24,3% para 25,7%).

Apesar da avaliação do líder ser estável e positiva, o conjunto de casos que surgiram em setembro e a sua avaliação pela opinião pública parecem ter estabelecido um teto para as intenções de voto no PS, que foram diminuindo desde o início de setembro (38,4%) até finais desse mês e o início de outubro (36,5%) e foram confirmadas nas urnas (36,65%).

Por seu lado, o PSD que tinha atingido o  ponto mais baixo no início de setembro, não beneficiando ainda da recuperação do líder, subiu fortemente durante o mês, estando na sondagem publicada na semana anterior às eleições, com o trabalho de campo a decorrer entre 21 e 25 de setembro, com 25,2% de intenção de voto. Na última sondagem, publicada a 4 de outubro (trabalho de campo entre 26 de setembro e 2 de outubro), o PSD volta a subir para os 26,8%, não refletindo a nossa sondagem a totalidade do aumento verificado nas urnas (27,9%). A rapidez do aumento da intenção de voto no PSD, provocada por um lado por um conjunto de fatores associados ao desempenho do líder neste período e, por outro, pela multiplicidade de fatores que justificam a descida, ainda que ligeira do PS (ambos descritos anteriormente), foram, na nossa opinião subjetiva, a principal causa para a sondagem não ter captado com maior precisão esta subida.

Já a tracking poll da Pitagórica, a empresa mais criticada pelos valores apontados para o PSD, foi aquela que mais se aproximou dessa realidade.

Os três novos partidos que asseguraram a representação na Assembleia da República mantiveram ao longo do mês, ainda que no início não os tenhamos desagregado dentro da categoria dos OBN, um comportamento que indicava a possibilidade de eleição de um deputado, ao contrário do Aliança. Certamente fruto da mediatização da cabeça de lista por Lisboa, mas ainda não comprovado em estudos pós-eleitorais, o Livre apresentou uma sobrevalorização nas intenções de voto. Já a Iniciativa Liberal, pela dispersão das intenções de voto entre Lisboa e Porto, estava na contingência de não eleger ninguém ou de poder eleger um deputado por cada círculo.

  1. As transferências de voto de 2015 para 2019

Tendo começado com as transferências de voto entre 2011 e 2015, esta análise não podia terminar sem comparar as transferências de voto entre 2015 e 2019, nomeadamente no que se refere à PàF, à origem dos votos nos três novos partidos e ao reforço do PAN.

No final do trabalho de campo da Aximage ainda havia mais de 37 mil votantes da PàF 2015 que estavam indecisos quanto ao seu sentido de voto. Esta situação poderá também ser uma explicação para a Aximage não ter conseguido prever a totalidade da dimensão da última subida do PSD. Este partido recebeu, assim entre 1,152 e 1,189 milhões de votos da coligação. Mais de 334 mil eleitores da PàF 2015 vieram aumentar a abstenção, sendo que mais de 99 mil abstencionistas de 2015 votaram PSD a 6 de outubro. Em relação aos eleitores de 2015 do PS, BE, CDU e OBN, o saldo do PSD e do CDS em 2019 foi negativo em 47 mil votos para o PS, positivo em 1.400 votos para o BE, negativo em 9.400 votos para a CDU e negativo em mais de 171.700 para os Outros partidos, os Brancos e os Nulos.

Quanto aos três novos partidos com representação parlamentar, em relação às votações de 2015 e de forma muito aproximada, o Chega recebeu cerca de 29 mil votos da PàF, 12 mil da abstenção, 13 mil do PS, BE e CDU, sendo que desta coligação terá havido uma transferência de mais de sete mil votos. Dos OBN o Chega recebeu mais de 12 mil votos. É de salientar nesta transferência que o PNR perdeu, entre estas duas eleições cerca de 12 mil votos, quando em todas as eleições desde 2002 apresentava crescimento sustentado. A Iniciativa Liberal teve como principal fonte da sua votação os eleitores da PàF, cerca de 49 mil, seguido dos abstencionistas, com menos de 7 mil, do PS, menos de 6 mil e dos OBN com mais de 4 mil. Finalmente, o Livre captou menos de 23 mil votos ao PS, BE e CDU, quase 10 mil aos OBN e um pouco mais de 22 mil à abstenção.

Finalmente, o PAN viu reforçada a sua votação junto de cerca de 43 mil eleitores da PàF, quase 25 mil abstencionistas, mais de 5 mil do BE e mais de 4 mil do PS.

NOTA: Todos os números e percentagens devem ser lidos tendo em consideração as margens de erro associadas aos diferentes partidos e coligações, principalmente no que se refere ao BE, CDU, CDS, PAN, OBN e, ainda de forma mais destacada ao Chega, à Iniciativa Liberal e ao Livre.

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