Partidos de terapia

PS e PSD são, hoje em dia, partidos sem uma função política, servindo apenas de veículos de satisfação das necessidades de expressão “identitária” da sua base de apoio, como os clubes de futebol são para os seus adeptos.

Há dias, arrastado da minha habitual reclusão pela promessa (cumprida) de comida apetecível, fui a um restaurante de um dos menos apelativos subúrbios de Lisboa jantar com pessoal amigo. Uma das comensais, uma jovem “um bocado esquerdista” que até tem (“ironicamente”) uma bandeira do PCP, comentou a dada altura que “até” nem tinha “nada contra o PSD antigo”, e que só a incomodava “o PSD recente”, que tinha trocado a “social-democracia” pelo “liberalismo”.

Para azar dela, estas palavras lançaram-me numa das minhas habituais diatribes, em que insisti que nem o PSD de Sá Carneiro era assim tão social-democrata quanto isso, nem o actual (ou o de Passos Coelho) é (ou era) particularmente liberal. Afinal, Sá Carneiro não se abstinha de falar em coisas como o “socialismo de miséria”, nem se cansou de pedir uma “mudança libertadora” contra “a burocracia socialista”, enquanto que o governo de Passos Coelho deixou o país com o mesmo estatismo que encontrara, com uma máquina fiscal fora da lei e a mão visível do poder político que toca em tudo, mesmo quando actua só por omissão.

Uma curta mas inadiável chamada da natureza obrigou-me a interromper o discurso e a ausentar-me, e quando regressei a conversa já se desviara para assuntos mais importantes, como séries televisivas ou a vida privada e qualidades estéticas de terceiros. No entanto, nos dias seguintes, fiquei a pensar na conversa, e no que poderia explicar o que para mim não passa de uma enorme diferença entre a percepção do que o PSD é e a sua realidade.

O problema não é só do PSD, e percebe-se melhor a sua natureza se se olhar para o PS primeiro. Em tempos, escrevi aqui que o Governo do PS chefiado por António Costa era essencialmente um “governo placebo”, cujo apelo à sua base de apoio não estava na substância das suas políticas, que se traduzem numa austeridade diferente da de Passos Coelho mas não menos “austeritária” e só aliviada pela melhor conjuntura internacional, mas antes em “sinalizar” a essa base de apoio que está do seu lado na discussão sobre essa “austeridade”, e em dar “voz pública” ao cansaço popular com os vários “apertos de cinto” das últimas décadas e com as exigências da “Europa”.

Nesse mesmo artigo, escrevi também que o mesmo se passara com o governo anterior, com a sua retórica reformista a esconder uma política profundamente imobilista, que dava uma “voz pública” à necessidade de maior “rigor” e à revolta com a fraude socrática.

Por outras palavras: PS e PSD são, hoje em dia, partidos sem uma função política, tendo como único papel o de uma espécie de cães de terapia políticos, veículos de satisfação das necessidades de expressão “identitária” da sua base de apoio, como os clubes de futebol são para os seus adeptos.

Do lado daquilo a que por simplismo ou ignorância chamamos de “esquerda”, fazem-se orações ao “investimento público”, à “igualdade” e à “justiça social”. Do lado daquilo a que por simplismo ou ignorância chamamos de “direita”, afirma-se constantemente o amor à “iniciativa privada”, à “liberdade” e à “coragem” de tomar medidas “difíceis”. Mas de ambos os lados se segue, mais despesa menos despesa, mais corte menos corte, a mesma política, a mesma forma de organizar a relação do Estado com os cidadãos, o mesmo estatismo que favorece quem consegue ter acesso às portas do poder e deixa desamparado o vastíssimo número de portugueses que não tem essa sorte, e por isso fica entregue à sua na hora de ir a um hospital, de sobreviver com a sua pensão ou de cair na pobreza.

De certa maneira, não poderia ser de outra forma: ao mesmo tempo que os eleitores que se identificam como ou “de esquerda” ou “de direita” têm posições semelhantes em relação aos mais variados temas, as pessoas que se dizem simpatizantes de um determinado partido afirmam ter um enorme grau de antipatia para com todos os outros.

É por isso que nem PS nem PSD podem sequer pensar em ter políticas muito diferentes daquelas que ambos têm levado a cabo, e é por isso que, simultaneamente, sentem a necessidade de adoptar uma pose retórica radicalmente diferente, não só da do rival, mas da realidade da sua própria acção: o seu papel limita-se ao de satisfazer a necessidade emocional dos seus eleitores de adoptarem uma retórica que lhes dê a sensação de que são aquilo que querem ser, seja isso o “socialista solidário” que quer “justiça social” para todos ou o “empreendedor independente” que quer “valorizar o mérito” de quem “faz pela vida”, ambos ignorando que somos todos essencialmente pobres que dependem directa ou indirectamente do Estado.

É talvez por isso que Rui Rio tem enfrentado tanta animosidade à sua liderança no seio do PSD: não (como merecia que fosse) pela total falta de credibilidade das suas promessas de “ética”, uma vez confrontadas com as escolhas de gente que de “ética” não tem nada para uma série de lugares importantes no partido, mas por se abster da pose de confrontação com o PS ou por insistir na afirmação ritualista de que o partido “não é de direita”.

Tratar o PS como se fosse o partido do Chifrudo na terra ou usar o vácuo termo “direita” são hoje símbolos identitários que o eleitorado (e o aparelho) do PSD precisa como de pão para a boca, em substituição da relativa indiferenciação de substância das suas políticas em relação às da “esquerda”, como do outro lado o uso do vácuo termo “esquerda” e a diabolização do PSD e do CDS cumpre o propósito equivalente.

Resta que, ao esgotarem os seus esforços na satisfação emocional dos seus apoiantes, dando-lhes a retórica que eles querem ouvir mas mantendo com maiores ou menores inflexões práticas as mesmas políticas que vêm mantendo há décadas, PSD e PS estão condenados a deixar ao país os mesmos resultados que há décadas obtêm, alimentando os problemas que há décadas atormentam esses seus eleitores, bem como o descontentamento que há décadas sentem com as suas condições de vida e os líderes políticos responsáveis por elas serem o que são.

O resultado é o que está à vista: uma parte cada vez maior dessas suas bases de apoio está a abandoná-los, em prol de partidos mais pequenos (que também não passam, em grande medida, de clubes que oferecem apenas uma afirmação identitária) ou a caminho da abstenção. Quanto mais se entregam exclusivamente ao seu papel de apoio emocional a bases de apoio interessadas em confrontação retórica sem diferenciação política, PS e PSD aproximam-se cada vez mais do dia em que nem isso conquistará o seu apoio.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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