Pedro Pinto: “Faria sentido ter uma liga portuguesa mais forte com centralização de direitos televisivos”

Em entrevista ao JE, o agora empresário da indústria do futebol fez o balanço de dois anos de Empower Sports e abordou o futebol português. Para questões de imagem e comunicação diz que os atletas também precisam de acompanhamento profissional. No futuro, Pedro Pinto ambiciona trabalhar com um dos dez melhores jovens jogadores do mundo.

Fundador da Emporwer Sports, Pedro Pinto | Foto de Cristina Bernardo

Pedro Pinto foi jornalista durante mais de uma década, a maior parte ligada ao desporto. Chegou a ser um dos principais rostos da CNN International, cobrindo sobretudo a Premier League e a Liga dos Campeões entre 2006 e 2013. O português passou ainda pela UEFA, tendo sido responsável pelo departamento de comunicação do regulador do futebol europeu até 2018. Mantém-se, atualmente, ligado à UEFA como consultor.

Mas o seu trabalho mais visível é o de apresentador das galas da UEFA. Em 2018, surgiu o convite da Eleven Sports Portugal, ao qual acedeu. E durante algum tempo foi administrador não-executivo do canal. Hoje mantém-se ligado à Eleven Sports como comentador, conduzindo algumas das entrevistas do canal. Com um percurso profissional ligado ao desporto, sobretudo ao futebol, nesse mesmo ano investiu nos denominados sports business [indústria do desporto], criando em maio de 2018 a Empower Sports, uma agência de comunicação e marketing vocacionada para trabalhar a imagem de atletas, treinadores, clubes e entidades ligadas ao desporto.

Dois anos volvidos, a Empower Sports trabalha a imagem dos campeões europeus Nani (Orlando City, EUA), João Mário (Lokomotiv de Moscovo, Rússia) e Cédric Soares (Arsenal, Inglaterra), mas também acompanha o desenvolvimento das carreiras dos treinadores Paulo Fonseca (AS Roma) e Pedro Martins (Olympiakos, Grécia). “Protegê-los e promovê-los nos mercados internacionais”, esse é o objetivo, conta Pedro Pinto ao Jornal Económico.

Numa conversa com o JE, o agora empresário da indústria do futebol faz o balanço de dois anos de atividade da sua empresa, aborda o futebol português e aponta objetivos. Quer trabalhar com um dos dez melhores jovens jogadores do mundo e admite vir a apostar nos eSports, já em 2021. Pelo meio revela que a Empower Sports estava a trabalhar com a federação turca a comunicação da final da Champions, mas que o projeto parou devido à pandemia da Covid-19, o que reforça a ideia de que a final da liga milionária poderá não se realizar em Istambul, na Turquia, como tem sido noticiado.

Dois anos passaram desde que enveredou pelo chamado sports business. Como surgiu a ideia de criar a Empower Sports e qual é o balanço dos primeiros dois anos?
Já tinha a ideia de criar uma agência para trabalhar com atletas e treinadores e entidades desportivas. Foi essa a razão pela qual deixei a CNN em 2013, mas depois surgiu o convite da UEFA que não podia recusar. Depois de quatro anos na UEFA e de ter aprendido muito a nível de comunicação institucional e pela forma como os atletas seguiam a sua comunicação, deu-me mais força e ímpeto para lançar este projeto.

Estou muito contente com o trabalho que temos feito com os nossos clientes. Os atletas, principalmente, e os treinadores também têm uma capacidade de ser ‘influenciadores’ e motivadores. Tradicionalmente, nesta indústria do futebol, o trabalho de comunicação tem sido feito de uma forma muito amadora – normalmente são membros da família ou amigos que ajudam os atletas neste tipo de trabalho. Mas se para questões legais, os atletas têm um advogado, se para questões financeiras têm um contabilista, para questões de comunicação – quando movem milhões de euros – acho que precisam de ter também um acompanhamento profissional. Tendo em conta o meu currículo e a minha experiência , achei que podia ajudar nesta matéria.

Para já, trabalhamos principalmente com o Nani, João Mário e Cédric [Soares] na parte dos atletas, e com  o Paulo Fonseca e o Pedro Martins na parte de treinadores. Todos têm uma grande capacidade de promover mensagens positivas e acho que estamos a conseguir fazer isso. Têm mostrado sempre uma grande mente aberta para aceitar e negociar as nossas ideias.

Também tem trabalhado a imagem de clubes, como o Lille de França. Como é que se trabalha o mediatismo de um clube de futebol?
Com o Lille cumprimos um projeto de quatro meses, durante a campanha do clube na Liga dos Campeões e o objetivo era fazermos assessoria de imprensa internacional. O clube mexe-se muito bem a nível nacional, mas muitas vezes não tem os recursos e não tem os contactos da imprensa mundial que uma agência como a nossa poderá ter, para criar oportunidades e promover a marca. Estrategicamente, com o dono [Gérard López] e o presidente e CEO do clube [Marc Ingla], criámos uma estratégia para promover a marca do Lille em mercados onde normalmente eles não apareceriam. O interesse pode existir, mas os jornalistas às vezes podem estar ocupados e nem eles, por vezes, podem pensar nas histórias que poderão contar em conjunto com um clube. Era isso que nós tentávamos maximizar: gerar as histórias que ajudam a promover a marca do clube, através dos meios de comunicação que estavam interessados nestas histórias. O projecto correu muito bem.

Depois do Lille surgiram mais clubes para trabalhar a marca, como por exemplo clubes portugueses?
Já trabalhamos com outros clubes, mas preferem o anonimato e confidencialidade. Em Portugal não, mas poderá ter havido pessoas ou projetos que tivessem envolvido pessoas portuguesas com algumas ligações ao futebol português.

O mundo atravessa uma situação única, devido à pandemia da Covid-19. Uma situação que levou o futebol a paralisar durante meses. Nestas circunstâncias, como é que se comunica a imagem de um atleta ou de um clube?
Por incrível que pareça, tivemos mais trabalho durante esta fase da pandemia. Os canais de televisão, os jornais, as rádios e os sites precisam de conteúdo e nós temos a chave da porta que lhes permite ter acesso a esse conteúdo. Têm chovido os pedidos de entrevista para o Nani, para o Cedric, para o João Mário, Paulo Fonseca, Pedro Martins. Com as competições paradas, os próprios atletas têm mais disponibilidade porque têm mais tempo livre.

Por falar em futebol e em pandemia, como avalia a forma como os clubes estão a lidar com a situação?
Temos visto quão frágil o futebol pode ser, perdendo as grandes receitas que gera. Há muitos clubes que fazem a sua gestão e os seus investimentos de acordo com as receitas que geram. Não só a nível de bilhética, mas como, principalmente, direitos televisivos e patrocínio e merchandising. Os clubes neste momento estão a viver uma situação dramática, porque viram-se sem a possibilidade de ter os rendimentos a que estão habituados para gerir os seus próprios custos. Muitos clubes não tem uma almofada financeira muito grande, porque a exigência é sempre jogar no limite das excentricidades para tentar ganhar. Espero que a maioria dos clubes consiga sobreviver a este período de crise, apesar de saber que muitos dos mais pequenos não o conseguirão fazer.

Na questão dos patrocinadores, também surge a variável dos direitos televisivos sobre as transmissões dos jogos. O atual momento justificaria, no futebol português, uma antecipação da discussão sobre a centralização dos direitos televisivos da Liga?
Já se viu em muitos outros casos que o produto de uma liga unida vale sempre mais. A Premier League provou isso desde muito cedo. Há o caso da La Liga, onde o Barcelona e o Real Madrid resistiram durante muito tempo à centralização dos direitos, mas acabaram por ganhar todos porque o produto La Liga está mais forte, agora, do que alguma vez foi e a própria competitividade do campeonato ganhou muito com a centralização e uma distribuição mais justa dos rendimentos.

E em Portugal isso também poderia ser possível?
Acho que faria sentido ter uma liga mais forte, mesmo no que diz respeito ao seu posicionamento fora de Portugal, tendo um contrato de centralização de direitos. Acho que Portugal tem uma liga muito interessante para o público internacional, tendo em conta que é o sítio onde várias estrelas do futebol mundial nascem. E onde nascem para o futebol, porque algumas delas, não nascendo em Portugal, nascem para o futebol internacional em Portugal.

Devia ser feita uma campanha forte para promover a liga portuguesa com esse posicionamento.E acho que se todos se juntassem para dar voz esta história – com uma voz mais forte e uma voz estratégica e proativa – para o mercado internacional, poderiam todos ganhar com isso.

Voltando aos negócios do desporto. A Empower Sports apresenta no seu site que trabalha a comunicação da final da Liga dos Campeões deste ano. A UEFA tem o desejo de concluir a prova, mas ainda não é certo. Estava previsto que a bola ia rolar em Istambul, na Turquia. Agora é possível que a reta final da prova venha para Portugal. Como está esse projeto?
Estávamos a trabalhar na promoção da final da Liga dos Campeões de 2020, em Istambul, com a federação de futebol turca. Mas agora o projeto está parado.

Apesar do contexto de emergência e crise, prevê anunciar mais atletas ou treinadores como agenciados pela Empower Sports até ao final do ano?
Gosto de me focar na qualidade e não na quantidade. Felizmente temos clientes de grande qualidade. Já rejeitamos trabalhar com clientes que nós achávamos que não tinham o posicionamento indicado para o trabalho que gostaríamos de desenvolver. Obviamente, esta questão da pandemia abortou algumas propostas que nós tínhamos em andamento, principalmente com clubes internacionais. Mas gostaria de pensar que estas conversas vão ser retomadas no final da época ou antes do início da próxima.

Quais são os objetivos da sua empresa para 2021?
O meu objetivo seria ter oportunidade de trabalhar com um dos próximos grandes talentos do futebol mundial. Neste momento apoiamos a comunicação da Team of Future, que trabalha com o Florentino Luís, Chiquinho [ambos atletas do Benfica] e o Nuno Santos [emprestado pelo Benfica ao Moreirense]. Tenho gostado muito da experiência de trabalhar com os jogadores mais jovens porque sinto que o papel da educação é valioso e eles apreciam isso. Não sei se é já para o próximo ano, mas gostaria de trabalhar com um dos dez melhores jovens jogadores do mundo.

E em matéria de clubes ou organizações?
Gostava de ter oportunidade de trabalhar com mais clubes internacionais, esse é um objetivo. Mas como somos uma empresa pequena, ainda, é a qualidade e não a quantidade que reforço. Temos tempo para crescer e temos de ser responsáveis, especialmente nesta altura, em que o mundo do futebol como em muitas outras indústrias as pessoas têm sentido mais responsabilidade relativamente aos investimentos que fazem e aos custos que têm. Nós temos de nos adaptar a essa realidade.

O atual momento desviou atenções para os jogos eletrónicos (eSports). Essa é uma área que a Empower Sports vai apostar?
Sim. É um dos objetivos para a próxima época, mas temos de pesquisar essa matéria porque não sou um perito e caso conseguíssemos caçar um jogador de eSports teríamos de contratar uma pessoa especializada nessa matéria. Certamente está no nosso radar, no nosso mapa trabalhar com um jogador de eSports. Os jogos eletrónicos já passaram a fase do potencial, são hoje uma certeza e acho que seria muito divertido ter uma oportunidade de explorar esse mercado.

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