Pelo direito à “ofensa”

A democracia parlamentar não é um sistema perfeito mas continua a ser o melhor de todos, pela simples razão de que é o único que permite a alternância pacífica do poder entre as diferentes forças políticas.

A democracia parlamentar não é um sistema perfeito mas continua a ser o melhor de todos, pela simples razão de que é o único que permite a alternância pacífica do poder entre as diferentes forças políticas. E é o único sistema que permite que possamos escolher livremente o nosso destino: numa democracia parlamentar, a liberdade individual não é um mero instrumento para atingir determinado fim, mas antes um fim em si mesma. Somos livres e a nossa liberdade só termina quando começa a dos outros.

Esta visão da democracia parlamentar como sistema assente no consenso e no respeito pela liberdade individual está a ser cada vez mais contestada um pouco por todo o mundo. Em Portugal, por exemplo, não é claro que todos os partidos com assento parlamentar apoiem verdadeiramente a democracia parlamentar. Em alguns casos, basta raspar um pouquinho o verniz do discurso políticamente correto para que venha ao de cima a velha arrogância própria de quem se considera moralmente superior e com direito a decidir sobre a vida dos outros.

Mas a maior ameaça à democracia pode vir não dos políticos demagógicos e populistas, mas de onde menos se esperava, a juventude. De acordo com o “World Values Survey”, divulgado em outubro, apenas 30% dos americanos nascidos a partir de 1980 considera “absolutamente essencial” viver em democracia. Este valor compara com 72% nos nascidos antes da Segunda Guerra Mundial. Por outras palavras, os millennials acreditam menos na democracia do que as gerações anteriores. Além disso, têm tendência a rodear-se de pessoas que pensam da mesma forma, são menos tolerantes face a opiniões divergentes e aceitam como normal o silenciamento de quem não partilha das suas ideias. A prová-lo estão as numerosas petições para impedir determinados oradores de discursarem em universidades ou eventos públicos. Em 2016, uma sondagem da Gallup concluiu que a maioria dos universitários americanos concorda com o afastamento de oradores menos consensuais.

Em Portugal não existem dados, mas ainda recentemente tivemos um episódio semelhante quando uma associação de estudantes procurou impedir Nogueira Pinto de discursar numa conferência ou a tentativa de boicote, noticiada esta semana,  a um encontro académico sobre  o aquecimento global, no Porto.

A vida real parece imitar assim as redes sociais, com as pessoas que pensam de forma diferente a serem “bloqueadas”. Se a geração dos anos 60 e 70 tinha como lema “é proibido proibir”, muitos jovens de hoje parecem defender o inverso, frequentemente desumanizando quem é visto como adversário. A tolerância, princípio que consiste em saber coexistir com as pessoas de quem discordamos, está perigosamente a ficar fora de moda.

Há quem avance algumas explicações para este fenómeno. Talvez os jovens de hoje sejam criados num ambiente excessivamente protetor, onde não têm de lidar com a mais pequena forma de angústia ou ansiedade, defendem alguns. Estamos a criar uma geração de eternos ofendidos, que ficam indignados à mais pequena coisa, dizem outros. Talvez sejam essas as explicações. Mas o certo é que o mundo em que vivemos não foi criado pelos millennials. l

 

P.S.: Devem existir limites à tolerância? Claro que sim. Não devemos tolerar aqueles que se servem da liberdade permitida pela democracia para a tentar destruir. Mas há dois aspetos a ter em conta. O primeiro é que esses casos, em que existe a intenção clara de acabar com a democracia, são raros. Uma pessoa racista ou homofóbica pode ter opiniões questionáveis para a maioria de nós, mas isso, per si, não a transforma em alguém que procura aativamente destruir a democracia e a liberdade. Uma coisa é a opinião, que deve ser sempre livre, por deplorável que seja; outra é a ação concreta, através de atos ou de incitação ao ódio e à violência, que são punidas por lei.

O segundo aspeto é que, ao contrário do que muitos defendem, a História demonstra que a melhor arma contra o extremismo é a Razão, ainda que com a preciosa ajuda da Justiça quando aquele se torna ameaçador ou violento. Foi o que aconteceu quando as democracias europeias enfrentaram grupos terroristas de esquerda e de direita, nos anos 70 e 80. Antes de serem derrotados pelas forças da lei, esses grupos já tinham sido vencidos perante as opiniões públicas dos respetivos países.  A Razão venceu e pode voltar a vencer. Os democratas não devem ter medo de debater com as Le Pen deste mundo, porque os nossos argumentos são mais sólidos.

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