“Persiste um foco exagerado na atuação de curto prazo”

A inovação não é uma opção mas uma questão de sobrevivência para as empresas líderes, defende o diretor-geral da COTEC.

Como avalia a evolução da capacidade de inovação das empresas portuguesas nos últimos anos?

Trata-se de uma evolução a diferentes velocidades. Não havendo sectores que se destaquem, há claramente líderes em cada sector. As empresas deste primeiro pelotão – integrado pela maioria dos associados da COTEC – por via de uma liderança esclarecida, gestão qualificada e de equipas de grande talento, têm vindo a interpretar com sucesso as tendências de mudança da envolvente – tecnológicas, consumidor ou regulatórias-, encurtando os ciclos de lançamento de novos produtos mais customizados e com maior desempenho, com níveis mais profundos de integração interna e externa de processos de negócio, seja na concepção e fabricação, na logística, na distribuição ou no serviço a clientes, com ganhos de flexibilidade e tempo de resposta ao mercado, traduzidos em maior produtividade e eficiência.

São essas as principais forças das empresas líderes em inovação?

As empresas líderes na inovação demonstram ter o domínio simultâneo de competências de gestão em todas as dimensões que determinam a maturidade dos processos de inovação – estratégia, talento, gestão do risco, propriedade intelectual, redes de cooperação e cultura – introduzindo sistematicamente novidades nos processos de negócio e melhorando o retorno dos investimentos em inovação caminho para as restantes, de modo a “queimarem” etapas e recuperarem o atraso, terá que passar por incentivos à cooperação, às parcerias e à aprendizagem com o grupo da frente.

As lideranças empresariais em Portugal já assumiram plenamente nos seus objetivos de gestão a necessidade de inovação?

Para a maioria dos líderes empresariais nacionais, especialmente daqueles que operam no sector exportador, a inovação não é uma opção mas uma questão de sobrevivência. Persiste, no entanto, um foco exagerado na actuação de curto prazo e a percepção de menor urgência na antecipação e preparação para a mudança.

A tensão organizacional entre a execução e a reinvenção, fenómeno que se constata em geral em todas as empresas, mas é especialmente crítico no sector exportador exposto a forte concorrência, é tanto maior quanto mais forte for a percepção da rapidez da mudança da envolvente e dos riscos inerentes à escala de operação, muitas vezes insuficiente para libertar tempo e recursos necessários para a construção de novas opções de crescimento do negócio.

De que forma é que as empresas portuguesas podem efetivar  de forma mais célere a implementação dos processos de inovação?

Como condições essenciais, será necessário tornar a inovação um processo de negócio com resultados previsíveis e repetíveis, gerir a mudança a todos os níveis da organização, e adequar as competências de gestão de risco ao “apetite” da empresa pela tecnologia e inovação. A COTEC tem dado a conhecer muitas empresas nacionais que demonstram que a gestão dos processos de inovação é uma competência organizacional que pode ser adquirida, exercitada e maturada até à excelência.

Quais são os principais obstáculos à inovação nas empresas portuguesas?

Numa conjuntura positiva, a principal barreira é a resistência à mudança no negócio e na organização e a ilusão de que o sucesso terá uma duração indefinida. Por outro lado, numa situação de contração económica, a mudança é incontornável e ocorrerá em condições muito mais difíceis. A missão da liderança será assim criar as condições para que a organização dedique em tempo de bonança os recursos e competências para executar e, ao mesmo tempo, reinventar e expandir o negócio. Para isso é preciso a preparação e adaptação dos colaboradores a todos os níveis da empresa, capacitar a organização para criar as condições para atrair, desenvolver e reter o talento, estimular e premiar uma atitude de experimentação de novas ideias, criar ou expandir uma agenda de colaboração aberta – especialmente fora do sector de actividade actual – e, por último, mas não menos relevante, o investimento em novo conhecimento.

Quais são as principais diferenças entre a capacidade de inovação das grandes empresas e PME?

A diferença reside na escala a que a empresa opera e os seus efeitos no ciclo de inovação e crescimento. Por um lado, uma dimensão mais pequena facilita a agilidade, a velocidade de mudança e a capacidade de adaptação à turbulência nas condições externas, tais como a procura, tecnologia, concorrência ou regulação. Por outro, uma escala maior de operação permitirá libertar maiores recursos para investir num portfólio de projectos de inovação mais diversificado, enquanto que uma organização de menor dimensão terá menos recursos disponíveis, de fazer escolhas mais difíceis e assim maior dificuldade na diversificação do risco de inovação e no seu retorno.

Quais são as perspectivas sobre a inovação empresarial em 2019?

Como um tsunami que se aproxima silenciosamente, a digitalização inteligente continuará a impulsionar mudanças significativas em todos os sectores, em todos os processos de negócio de todas as fases da cadeia de valor. No entanto, não é antecipável em que sectores e em que processos este ‘tsunami’ ocorrerá com maior impacto. Há sectores de actividades onde o impacto já se faz sentir como a construção, turismo ou a saúde. Como desenvolvimentos mais interessantes destacam-se as tecnologias de simulação do ciclo completo de vida do produto, a concepção de materiais e produtos inteligentes que permitirão a ascensão da “economia do desempenho” mais sustentável, e as marcas direct-to-consumer, omni-canal e os marketplaces digitais, que permitirão novas formas de expansão e comercialização global. Neste clima, o papel da liderança será cada vez mais decisivo e visível. Executar e reinventar o negócio será uma missão cada vez mais difícil, mas necessária, para a sobrevivência e liderança de mercado. Em tempo digital, o ciclo para a transformação e disrupção de um sector ou categoria é cada vez mais curto. Com desempenhos de gestão diferentes, poderemos assistir ao alargamento de distâncias relativas de forma mais rápida e irreversível, com consequências de enfraquecimento do desempenho ou mesmo desaparecimento de empresas até há pouco tempo prestigiadas e consideradas modelos de gestão.

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