Pirataria, imprensa, dados e (micro)pagamentos

Uma edição digital de um jornal ou revista não é uma réplica da edição impressa. Reutiliza conteúdos, mas introduz uma dinâmica praticamente síncrona com a atualidade. E é aqui que está o potencial.

No início de abril, os diretores de 20 jornais e revistas portugueses redigiram uma carta conjunta em que apelaram aos cidadãos ajuda no combate à pirataria que “se serve do jornalismo profissional”, através da partilha de edições completas de jornais e revistas em formato PDF, através das redes sociais, email, WhatsApp, numa clara e grosseira violação dos direitos de autor, impactando a sustentabilidade financeira, o emprego de centenas de pessoas e a independência dos meios de comunicação social, constituindo um crime previsto no código penal com penas pesadas.

Importa ainda referir que, aparentemente, as versões em circulação ilegal não eram meras digitalizações de edições impressas, mas sim a “arte final” de cada edição, o que leva a pensar que, antes da partilha, ocorreu um ataque informático de intrusão e de roubo de informação.

No entanto, o incremento da pirataria não se tem restringido à imprensa. O aumento dos casos de ataques informáticos a empresas e a cidadãos tem aumentado desde o início da pandemia, aproveitando-se da maior utilização da internet mas também do facto de muitos de nós estarem em regime de teletrabalho, eventualmente mais vulneráveis digitalmente, sem a segurança das nossas redes e acessos corporativos.

Mas qual a solução para este problema, para além do combate à pirataria? Será a aquisição das edições impressas ou a subscrição das edições digitais o único caminho? Na minha opinião, e no contexto digital, não.

Assiste-se hoje, em todas as áreas de negócio, a uma tendência para a hiperpersonalização. Muitos consumidores não estão dispostos a comprar a totalidade de uma edição ou optar por um modelo de subscrição mensal ou anual, em que adquirem conteúdos que nunca irão ler ou que, simplesmente, não lhes interessam.

Existe uma larga faixa de potenciais leitores, que estão, sim, dispostos a comprar uma notícia, ou um conjunto de notícias relacionadas com um assunto do seu interesse, ou a subscrever um tema da atualidade ou notícias sobre um determinado país ou empresa, por exemplo.

E é aqui que os meios de comunicação têm um potencial de inovação ainda não totalmente explorado comercialmente, ou seja, convertido em subscrições. Ao acedermos ao website (a qualquer website em geral) de um jornal ou revista, ou quando utilizamos a respetiva app, estamos a deixar um rasto digital de dados de utilização relacionados com o dispositivo que usamos, com os conteúdos que visualizamos, com o local onde acedemos, a hora em que o fazemos, entre outros.

Estes dados, devidamente trabalhados através de algoritmos de inteligência artificial, permitem entender o perfil de cada utilizador, agregar segmentos de utilizadores e personalizar a experiência de utilização, apresentando conteúdos ajustados em função do perfil do leitor, ou seja, compondo uma edição à medida das necessidades e interesses dos leitores e não fazendo um dump de conteúdos iguais para todos.

Na verdade, uma edição digital de um jornal ou revista não é uma réplica da edição impressa. Reutiliza conteúdos, mas introduz uma dinâmica praticamente síncrona com a atualidade. E é aqui que está o potencial: o domínio dos dados e o conhecimento do perfil dos leitores, permitindo oferecer uma hiperpersonalização de todos ou de parte dos conteúdos.

Dominados os dados, a questão que se coloca é como converter esta hiperpersonalização em subscrições.

Adicionalmente aos modelos de subscrição atuais ajustados à personalização, uma possibilidade são os pagamentos top-up, ou seja, pré-pagamento, que permitiria o acesso a conteúdos até ao limite do valor pré-carregado. Uma vez esgotado o plafond, o leitor teria que efetuar novo pagamento.

Outra opção, mais sofisticada poderia ser através da utilização de micropagamentos. Significa isto que se permitiria ao leitor pagar a um nível muito mais granular (à notícia, por exemplo), em função do consumo efetuado, agregando um conjunto de consumos/micropagamentos que permitissem efetuar uma transação de pagamento com um valor que fosse rentável, tendo em conta os custos das transações de pagamento.

A apetência dos leitores pela hiperpersonalização existe, a tecnologia e a ciência que permitem transformar dados em conhecimento também. O contexto tecnológico e legal para a inovação nos pagamentos é há muito conhecido.

Qual dos leitores deste artigo não gostaria de ter uma edição online do Jornal Económico à sua medida, com notícias ajustadas aos seus interesses e necessidades de informação, e não estaria disposto a pagar por esse serviço? Eu gostaria e estaria.

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