Por falar em partidos políticos

Estamos num momento de potencial aumento de polarização nacional, com o aparecimento de novos movimentos/partidos, que poderão ter resultados significativos nas legislativas.

Muito se tem falado da participação política, ou da falta da mesma. A participação política dos portugueses é assunto recorrente, na “ordem do dia”. Dessa discussão resultam, não raras vezes, argumentações sobre a militância partidária ao nível nacional. Há, inclusive, obra publicada de conhecidos académicos sobre o assunto.

Para os interessados na matéria, uma pesquisa na internet resultará num rol de indicações de estudos empíricos sobre a mesma. Aconselho esta pesquisa rápida e a leitura de alguma dessa interessante produção. Sendo um assunto importante, sobre o qual tantos falam sem olharem para os números, acredito que é relevante discutir um pouco esta problemática. Sobretudo quando, em contexto pré-eleitoral, já devíamos estar a reflectir sobre o assunto.

Este ponto não é despiciendo, para mais no momento de potencial aumento de polarização nacional: surgem novos movimentos/partidos, quiçá com resultados eleitorais significativos nas legislativas.

Os números de militantes dos partidos políticos são, recorrentemente, apontados como estando a diminuir um pouco por toda a Europa. Estes dados são sempre difíceis de obter e os partidos políticos nem sempre os disponibilizam.

Há quem defenda que os cidadãos procuram outras formas de representação mais “fluidas”, e que talvez seja isso que está a acontecer e que até possa ser positivo para o poder político no Velho Continente. Duvido que assim seja. Creio que é uma perspectiva que traz mais dissabores que benefícios.

Há, na literatura das últimas décadas, várias tentativas de sintetizar as principais razões pelas quais os cidadãos se tornam militantes. Autores como Seyd, Patrick e Whiteley (1992), para citar apenas um exemplo, debruçaram-se sobre o assunto e as suas obras têm sido usadas, reformuladas, afinadas e criticadas, logo, completadas, ao longo dos anos. Para não me alongar com classificações, assinalo alguns aspectos que considero relevantes.

O propósito de um determinado grupo e a sua capacidade de resposta aos objectivos do mesmo; causas específicas que impliquem lutar por uma determinada política pública; a ideia de que haverá benefícios específicos, como a melhoria individual das condições sociais, materiais ou profissionais; interesse em prosseguir uma carreira de activista, ou seja, sentido de satisfação na procura de servir certas causas para bem da sociedade ou parte dela; altruísmo (muito parecido com o anterior ponto mas que não se manifesta, necessariamente, como um prazer adquirido da luta por causas); expectativas relativas ao estabelecimento de redes sociais e respectivo estatuto na sociedade; identificação e apoio de um determinado partido ou líder partidário; crença de que a sua acção tem um impacto real nas acções dos políticos com mandatos; e, ideologia, são algumas das principais causas para um indivíduo se tornar militante.

A “olho nu” podemos apontar, entre estas razões, aquelas que consideramos mais ou menos éticas, dado que são todas interessadas porque os cidadãos respondem aos seus interesses quando se juntam a uma organização partidária – sejam elas classificadas como mais ou menos nobres. Ora, essa dedução é natural e desejável, fazendo parte da essência das organizações políticas, pelo que, em democracia, não nos devemos chocar com “razões de interesse”.

Existem outros problemas dentro dos partidos e muitos deles resultam em ilegalidades, mas não necessariamente, e aí é que nos devemos deter. É por essa indignação que a cidadania se manifesta e não pela recorrente ideia de que quem está e faz política deve fazer parte de um grupo de anémonas sem posicionamento ou preferências. Isso não existe, e ainda bem.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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