Por uma “ocasio-cortezição” da política portuguesa

Hoje em dia, mais que palco, holofotes e estrelato político são precisas ideias que respondam à crescente insatisfação do eleitorado. Nacional e europeu. Aliás, por cá, a Europa ainda está por debater.

Recentemente, o Expresso publicou um artigo sobre o domínio cada vez mais crescente de políticos portugueses nos órgãos de comunicação social, e descreve a presença esmagadora de 95 políticos na imprensa como uma “originalidade portuguesa”. Embora não seja inteiramente rigoroso na exposição de alguns factos, o artigo assinala a forma como o mundo da política passou a contaminar o meio do entretenimento popular.

“Cataplana” foi uma das palavras a dominar esta semana, devido à presença de António Costa no programa da manhã de Cristina Ferreira na SIC, a exibir os seus dotes culinários, rodeado da família. Antecedido por Marisa Matias e Assunção Cristas, todos candidatos a entrarem no jogo da pessoalização da política portuguesa, em que, de súbito, as vidas pessoais dos candidatos se tornam trunfos para disputar votos no ano eleitoral de 2019. Não sou da opinião de que um político deva traçar linhas vermelhas no eleitorado a que escolhe dirigir-se, pois também faz parte da sua função chegar ao maior número possível de pessoas, desde que não ceda à tentação de discursos vazios e populistas.

Pode dizer-se que Marcelo de Rebelo de Sousa inaugurou este novo estilo de fazer política, o qual coloca algumas questões problemáticas no sentido de que esta elite política minoritária não é representativa da pluralidade da sociedade portuguesa, como realçou a Presidente do Sindicato dos Jornalistas no artigo do Expresso, sendo que parte dessa elite usa os espaços de análise para fazer pouco mais do que propaganda.

A verdade é que os anos eleitorais em Portugal são, regra geral, marcados por uma excruciante superficialidade e tendência para a fulanização do debate político. A luta por visibilidade em espaços de informação — e que agora minou também espaços de entretenimento — não disfarça um doloroso vazio de ideias, projetos, linhas programáticas. A título de exemplo, a dois meses e meio das eleições europeias, nenhum dos partidos com assento parlamentar apresentou ainda o seu programa, tornando cada vez mais evidente a cada dia que passa que a Europa é toda ela uma matéria que ainda está por debater em Portugal, e o pouco que interessa se reduz ao acesso a fundos comunitários.

Esta visão demasiado estreita entra em rota de colisão direta com uma nova audiência mais exigente, mais global, mais atenta e mais impaciente por uma representação política de maior ousadia e substância. As desilusões políticas dos últimos 20 anos que levaram a várias crises económicas e a um aumento de desigualdades, podem ter tido o efeito de despertar uma maior consciência política nos cidadãos.

A maneira como Alexandria Ocasio-Cortez e outros fazem política não só tem abalado a arena política norte-americana, como tem ajudado a aperceber que, hoje em dia, mais que palco, holofotes e estrelato político são precisas ideias e planos que saibam responder a essa crescente insatisfação.

Não bastará dizer que os nossos políticos são parecidos com Ocasio-Cortez. Os nossos políticos terão de transformar-se em Ocasio-Cortez. Sem falsas promessas e pretensões.

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