Porque é que os populistas gostam de ‘fake news’?

O adágio popular “dividir para reinar” nunca fez tanto sentido como hoje, ainda que pareça não ter contagiado a população portuguesa.

Pois… é incrível, mas os escândalos, as inúmeras notícias e os desenlaces que a temática das fake news nos têm trazido nos últimos tempos são importantes. Estudos recentes mostram que informação pouco credível ou falsa condiciona as escolhas dos eleitores, logo, altera sentidos de voto. Ou seja, as notícias falsas têm impacto nos resultados eleitorais.

Neste espaço, tenho vindo a escrever amplamente sobre este fenómeno. Não é, pois, de todo, surpresa que o aborde novamente hoje. Temos bastantes e variados exemplos de como estes assuntos impactam os resultados nas urnas, como, por exemplo, o Brexit ou a eleição de Trump e Bolsonaro. O tema está na ordem do dia e tudo indica que irá continuar.

Num livro publicado recentemente, intitulado “Information, Autocracy and Democracy: Economic Transparency and Political (In)Stability”, James R. Hollyer, Peter Rosendorff e James Raymond Vreeland chamam a atenção para o facto de as democracias, tal como as conhecemos, terem menos hipóteses de sobrevivência quando há informação a circular com pouca qualidade, ou mesmo inverídica.

Assim, quando os eleitores estão mal informados, as probabilidades de cometerem erros no momento em que votam aumentam, erros esses que se prendem essencialmente com as análises que fazem daquilo que pode ser benéfico para si enquanto cidadãos e de acordo com as suas preferências. Isto não se afigura como positivo para uma “melhor democracia”. Em boa verdade, estes resultados minam facilmente a confiança das populações e contribuem para o ressurgimento e reforço de forças políticas antidemocráticas.

O adágio popular “dividir para reinar” nunca fez tanto sentido como hoje, ainda que pareça não ter contagiado a população portuguesa. Não por estarmos imunes a tal, não acredito nisso, mas talvez pelo facto de o descrédito nos políticos ser tão generalizado que o efeito se perde… Há que ter em atenção o que se passa à nossa volta. A História pode até não se repetir – hoje o mundo é muito diferente do que era há 100 anos – mas há sinais preocupantes. Os mais cautelosos vão preferir não arriscar nestes assuntos. É o meu caso. E o seu?

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

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