Porque reclamamos?

Até mesmo os obedientes falam, perguntam, questionam estas medidas, pouco coerentes, avulsas e de difícil entendimento. Não seria melhor rever a forma e conteúdo da comunicação?

Será que o Governo não pára para pensar porque é que no início de tudo isto – em Março – os portugueses tomaram eles próprios a iniciativa do confinamento, do resguardo, do distanciamento social e agora reagem mal a tudo o que é medida anunciada?

Reagem mal é forma de dizer porque, na esmagadora maioria dos casos, o povo é obediente. Mas até mesmo os obedientes falam, perguntam, questionam estas medidas, pouco coerentes, avulsas e de difícil entendimento.

Será que esta vontade de reclamar se prende com os sistemáticos maus exemplos que foram dados pelo Governo? Pelas excepções concedidas ao PCP e à CGTP?

Querem que o povo compreenda que o motivo da escalada de infecções são as reuniões familiares quando negam a sobrelotação dos transportes públicos ou garantem que Avantes e Fórmulas 1 foram inócuos à transmissão do vírus?

Será que o número de novos infectados e mortos anunciados todos os santos dias desde Março já não dizem nada às pessoas?

Sabemos que as pessoas fazem com facilidade e por iniciativa própria qualquer acção que percebem trazer-lhes benefício – porque será que tanto reclamam com as medidas impostas?

Não seria melhor rever a forma e conteúdo da comunicação? Digo eu… talvez começar por dar o exemplo, sempre, e depois pensar um bocadinho… dizem os cientistas que está provado que a vitamina D (na realidade o calcifediol) é um bom aliado para combater os coronavírus… não seria então mais sensato promover actividades ao ar livre? Também parece mais que provado que qualquer tipo de infecção respiratória se trata melhor ao ar livre do que em ambientes fechados… mais uma vez, podemos então sair de casa em vez de sermos obrigados a ficar nela fechados?

E temos ainda os especialistas em doenças mentais que dirão exactamente o mesmo – ficar fechado em casa não é o melhor remédio para a depressão, existente ou vindoura! Só aqui já temos três razões para sair de casa em vez de ficarmos nela confinados.

Mas registo que sair de casa para passear o cão, já se pode. Os animais… sempre os animais… de repente, passaram a estar acima das pessoas. Eu adoro animais, não me mordam já, eu própria tenho um cão, mas nem por isso considero que ele tenha mais necessidade de sair de casa do que eu. Menos ainda do que as crianças – fico tão preocupada quando penso nas crianças em idades pré-escolar e do 1º ciclo enfiadas em casa sem poderem brincar na rua, na praia, no parque, com os pais, amigos, primos…

Depois temos esta coisa dos horários. Vamos lá a ver se nos entendemos. As pessoas com uma vida dita normal, já não saem de casa entre as 23h e as 5h… no dia seguinte é dia de trabalho e a essa hora estão a dormir. Não é preciso uma pandemia ou ordens do Governo para isso.

Já a malta que se queira reunir a essas horas, claro que o fará na mesma, eventualmente até fica com mais vontade… quando não se percebem as regras e não se vê qualquer resultado prático das mesmas, a tentação para as quebrar é grande! No limite, a festa é maior… se vão jantar e de repente são 23h… olhem que maçada, têm todos de dormir no mesmo sítio – a pândega instalada!

E continuamos com a cena do tabaco e álcool até às 20h. Por acaso eu não fumo nem bebo, mas acho esta medida hilariante. As pessoas na fila da caixa do supermercado a comprar vinho… a fila por alguma razão demora a avançar… Ups, são 20h, já não dá. Levem refrigerantes, sempre cumprem as regras e ainda pagam um IVA mais alto que o do vinho!

E, por fim, ao fim de semana é incentivado o recurso às Uber Eats e Glovos desta vida, sendo que por acaso é quem vejo sempre em grandes grupos, sem máscaras, à conversa, junto dos restaurantes.

Resumindo – o importante é não haver reuniões familiares, pelo menos em casa e nos cemitérios. Sejam prudentes e oiçam o Ministro. É tê-las nos comboios, metro e cacilheiros!

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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