De acordo com o Barómetro Anual do Consumo 2025, as reclamações atingem novo máximo histórico ao atingirem o número de 239 mil o que traduz um aumento de 6,44%. A logística, as telecomunicações e o setor público lideram o número de ocorrências.
“Em 2025, os consumidores portugueses apresentaram quase 239 mil reclamações, um novo máximo histórico que expõe falhas graves na logística, nas telecomunicações e no setor público, mas também um consumidor mais informado, exigente e ativo na defesa dos seus direitos”, refere o Portal da Queixa.
O Barómetro Anual do Consumo 2025, do Portal da Queixa, revela que foram registadas 238.698 reclamações entre 1 de janeiro e 31 de dezembro de 2025, um novo máximo histórico que representa um aumento de 6,44% face às 224.256 queixas contabilizadas em 2024.
O período de análise oscila entre 1 de janeiro e 31 de dezembro de 2025 e o número total de reclamações consideradas ascendeu a 238.698.
“Este crescimento reflete uma dupla realidade: por um lado, fragilidades persistentes na qualidade dos serviços, sobretudo em períodos de maior pressão sobre as operações; por outro, uma maior literacia e empoderamento dos consumidores, cada vez mais atentos aos seus direitos e mais ativos na utilização de plataformas digitais para expor e resolver conflitos. Independentemente da causa, o aumento das reclamações traduz-se numa pressão acrescida sobre as marcas, obrigadas a melhorar processos, comunicação e apoio ao cliente”, lê-se no comunicado.
Logística e “last mile” lideram setores mais reclamados e telecomunicações e setor público em forte pressão
Em 2025, o setor de Correio, Transporte e Logística foi o mais problemático, concentrando 13,59% do total das reclamações. As falhas na entrega, atrasos e extravios continuam a ser um dos principais focos de insatisfação, agravados pelos picos de consumo do e-commerce.
“A análise dos motivos revela fragilidades estruturais na prestação de serviços e na cadeia logística. Os principais motivos de insatisfação em 2025 foram falha ou má qualidade do serviço (16,19%); falha na entrega (15,17%); fraude ou tentativa de burla (8,04%); problemas com pagamentos e transações (7,05%); e cobrança indevida (6,42%).
Em conjunto, as falhas de serviço e de entrega representam mais de 31% de todas as reclamações, confirmando que a jornada do consumidor – da compra à entrega e ao pós-venda – continua a ser o principal ponto de fricção.
O mês de dezembro destacou-se como uma anomalia estatística, concentrando 11,49% de todas as reclamações do ano, num contexto marcado por falhas logísticas, greves e incapacidade operacional para responder ao aumento exponencial das encomendas online. Transportadoras como CTT, CTT Expresso, GLS e Paack estiveram sob forte escrutínio, com a Paack a destacar-se pelo elevado número de queixas associadas a entregas falhadas, diz o Portal da Queixa.
Já o setor das Comunicações, TV e Media registou um crescimento expressivo de 34,29% nas reclamações, impulsionado pela entrada da Digi Portugal no mercado. Apesar da elevada procura e notoriedade, as queixas concentraram-se sobretudo em problemas de instalação e falhas técnicas iniciais. MEO, NOS e Vodafone mantiveram-se entre as marcas mais reclamadas, sobretudo devido a fidelizações e aumentos de preços.
Entre as marcas mais reclamadas em 2025 destacam-se Worten, CTT Expresso, MEO, NOS, Digi Portugal, CTT, IHRU, Vodafone e AIMA. O relatório evidencia ainda crescimentos acentuados em setores de maior risco, como Beleza e Estética (+52,5%), Mobiliário e Decoração (+51,9%) e Animais (+42,8%), muitas vezes associados a insolvências, encerramentos inesperados, burlas ou recusas de reembolso.
IHRU lidera queixas no setor público
No setor público, o destaque vai para o IHRU – Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, que se tornou a 4.ª marca mais reclamada em Portugal, refletindo atrasos e dificuldades no acesso a apoios à habitação. Também a AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo) e o IMT (Instituto da Mobilidade e dos Transportes) surgem entre as entidades mais visadas, embora este último tenha registado uma melhoria significativa face a 2024.
O Portal da Queixa diz que pela primeira vez, as mulheres ultrapassaram os homens no volume de reclamações, representando 50,09% do total, com maior incidência nos setores de compras, saúde, moda e bem-estar. As faixas etárias mais ativas situam-se entre os 25 e os 44 anos, refletindo um consumidor digital, exigente e pouco tolerante a falhas.
“O Barómetro Anual do Consumo 2025 confirma o Portal da Queixa como o principal ecossistema digital de resolução e exposição de conflitos de consumo em Portugal, superando os mecanismos oficiais em volume e relevância diária. Mais do que um retrato negativo, o aumento das reclamações revela um consumidor atento, informado e participativo, que recusa o silêncio e exige respostas”, lê-se no comunicado.
Na análise de Pedro Lourenço, fundador do Portal da Queixa by Consumers Trust, “os dados de 2025 não revelam apenas um aumento de reclamações, mas um consumidor que passou a decidir com base em escrutínio, comparação e reputação percebida. Reclamar passou a ser uma extensão natural da escolha de consumo e uma forma consciente de influenciar o mercado, não um gesto impulsivo de insatisfação”.
“Da mesma forma, a reputação das marcas já não é construída pelo marketing, mas pela curadoria coletiva da experiência partilhada online”, acrescenta.
“Plataformas como o Portal da Queixa transformam-se em fontes primárias de informação que alimentam modelos de Inteligência Artificial, que estão, hoje, acessíveis a qualquer consumidor, e que interpretam esse histórico como uma verdade percecionada sobre o valor, a fiabilidade e a confiança das marcas”, defende Pedro Lourenço.
“O mercado ainda não despertou para esta mudança estrutural. Enquanto muitas marcas continuam fascinadas com o potencial da IA como ferramenta, ignoram o seu impacto real como filtro de decisão do consumidor. Hoje, já não é a marca que define a sua narrativa, são os dados, as experiências públicas e a forma como a IA as lê, interpreta e devolve ao mercado”, conclui.
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