Portugal a saque

Já é tempo de dizer, sem medo das palavras, que, no combate à corrupção, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa não existe; que o primeiro-ministro António Costa faz figura de corpo presente.

1. A Operação Lex é a ultima prova da grave doença que afeta a democracia portuguesa. Com esta investigação, a corrupção deixou de ser um exclusivo dos meios empresariais, da banca, dos partidos, do poder local, do funcionalismo público, da política, das seitas, da polícia, da investigação.

A corrupção chegou ao interior da Justiça.

Agora também já temos juízes suspeitos de venderem sentenças num tribunal superior!

Ninguém pode ter dúvidas de que Portugal tem vivido anos terríveis; anos da mais absoluta dissolução no que diz respeito a valores, a caráter, a honestidade. Neste domínio, não há inocentes. O que aconteceu, o que provavelmente continua a acontecer na nossa vida pública, até à próxima investigação, ao próximo escândalo, é um libelo contra toda a sociedade portuguesa.

2. Esta interminável onda de horrores deteve um primeiro-ministro, atingiu alguns ministros, abalou famílias políticas, levou a economia ainda mais para baixo do que era devido pelas crises, roubou poupanças a muitos cidadãos, mas também colocou a nossa vida pública num patamar de fingimento notável.

É absolutamente espantoso.

Atores políticos, e a maioria dos sociais, agem como se estivéssemos a viver uma época normal. Calam-se. Assobiam. Seguem. Estarão, até, a discutir um qualquer plano nacional de combate à chaga.

A única mensagem, subliminar ou explícita, é a de que tudo isto constitui uma prova de vida da democracia. Nela, tudo se investiga, tudo se condena, tudo se regenera.

Acredite quem quiser.

3. As meias verdades, o sentimento de aceitação que normaliza a anormalidade, é um dos principais motivos pelos quais Portugal brevemente terá um partido como o Chega com alargada representação parlamentar, provavelmente indispensável a qualquer solução de governo ‘geringonça’ no centro-direita.

A próxima campanha eleitoral para a Presidência da República seria terrível sem o contributo de Ana Gomes, cuja disponibilidade pessoal reduz o campo de intervenção de todo o radicalismo associado ao nojo que esta realidade felizmente ainda convoca.

4. Já é tempo de dizer, sem medo das palavras, que, no combate à corrupção, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa não existe; que o primeiro-ministro António Costa faz figura de corpo presente e se demite quando lhe ouvimos, repetida, a mesma banalidade ou hipocrisia: “à política o que é da política, à Justiça o que é da Justiça”. É este statu quo que permite a existência da ignóbil realidade.

Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, refugiados na pandemia e na crise económica, absorvidos pelo “plano” (o dinheiro que aí vem da Europa será a fonte dos novos perigos…), arranjaram um álibi, que a eles lhes parecerá perfeito, para não liderarem um efetivo combate à degeneração moral do país que lhes deveria exigir muito mais do que o dever de reserva.

Tantos anos, tantos processos mediáticos, e Marcelo Rebelo de Sousa nunca achou oportuno uma qualquer intervenção especial que tornasse evidente que também ele vive torturado por esta realidade que aprisionou Portugal.

Não é compreensível.

Já não me parece sequer exagero ou injusto dizer que ambas as instituições, Belém e São Bento, fazem parte do problema da falência do regime. É a partir da inação de ambas que cresce o desalento e a ideia de ser necessária uma nova República que ponha cobro ao saque.

Não é exagero, é o que faz o desespero.

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