Portugal é um dos países onde os trabalhadores mais tempo passam na empresa e a culpa está nos métodos de organização de trabalho

Luís Miguel Monteiro explicou que os trabalhadores mais tradicionais ainda encaram a sua presença no local de trabalho como um exercício de competição, em que “quanto mais tempo estiver presente [na empresa] melhor trabalhador sou”, verificando-se então a repartição de responsabilidades e causas entre a produtividade e a quantidade de horas presente no escritório.

Os dados mostram que Portugal é um dos países da Europa onde os trabalhadores mais tempo estão na empresa ou no seu local de trabalho, mas a produtividade é reduzida e a culpa, segundo Luís Miguel Monteiro pode estar nos métodos organizacionais de trabalho que não estimulam a eficiência e eficácia.

O co-coordenador da equipa de laboral na Morais Leitão sustentou que os portugueses “privilegiam a quantidade de trabalho” existente, em vez de se organizarem para propiciar a eficiência e eficácia. Luís Miguel Monteiro explicou que os trabalhadores mais tradicionais ainda encaram a sua presença no local de trabalho como um exercício de competição, em que “quanto mais tempo estiver presente [na empresa] melhor trabalhador sou”, verificando-se então a repartição de responsabilidades e causas entre a produtividade e a quantidade de horas presente no escritório.

“Tempo de trabalho é uma das áreas em que me parece que o Código de Trabalho tem um conjunto de soluções muito ricas que permitem adaptar de forma particularmente eficaz diferentes formas de trabalhar”, apontou, concordando com um dos membros do painel em que “se verificou um empobrecimento das soluções legais na última revisão legal que veio reduzir o âmbito de aplicação dos instrumentos”.

Rui Andrade, responsável pela área laboral e também sócio da área de contencioso e arbitragem na Vieira de Almeida (VdA), durante a conferência digital “O Futuro do Emprego em Portugal”, organizada pelo Jornal Económico em parceria com a Multipessoal, ofereceu o exemplo do povo dinamarquês. “Entram às 8 horas e saem às 16 horas para aproveitar o único sol que conseguem, enquanto os portugueses saem à hora que quiserem porque têm sol durante o dia todo”, disse o responsável.

“É curioso perceber que o comportamento e performance do trabalhador está muito ligada às condições [meteorológicas]”, apontou, referindo que os portugueses fazem mais pausas durante o dia, não considerando má gestão por parte das empresas mas por gestão dos trabalhadores.

O responsável destacou ainda, durante a sua intervenção, que o mercado de trabalho atual “não é o mesmo que era há 20 anos”, notando-se maior capacidade no trabalhador para discutir “determinadas condições de trabalho com a entidade empregadora” pois os trabalhadores “hoje são muito mais sofisticados”.

Face ao teletrabalho, o co-coordenador da Morais Leitão classificou que esta não é a única forma de trabalhar, uma vez que “há muitas atividades que não se adequam, ou não podem ser exercidas com a eficiência e eficácia do teletrabalho”.

“O próprio teletrabalho pode introduzir mais uma segmentação nefasta no mercado de trabalho, porque dados do Eurostat mostram que a experiência do teletrabalho nos trabalhadores tem uma clara distinção entre as pessoas com rendimentos mais altos que tinham uma experiência de teletrabalho anterior por confronto com os restantes rendimentos”, indicou na conferência digital.

“Quando olhamos para o fenómeno do teletrabalho, e quando o estudamos e legislamos, devíamos ter preocupação de evitar que esteja novamente a introduzir o que o nosso país conhece, que é a desigualdade e diferenciação, que nos empobrece a todos porque quando o país não eleva o nível médio do seu rendimento e da sua capacidade produtiva acaba por penalizar tanto os que têm essa possibilidade e os que não têm”, explicou.

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