O meu amigo Joaquim, a quem já fiz referência noutra crónica aqui no Jornal Económico, regressou a Portugal após quase quinze anos no Reino Unido. Meses depois, perguntei-lhe como ia a vida e como sentira a transição. “Ó pá, sinto que vim para a reforma!” – respondeu, com um sorriso irónico.

Para quem viveu muitos anos fora, sobretudo em países do Norte da Europa ou nos Estados Unidos, regressar a Portugal é como entrar noutra dimensão: o tempo parece abrandar. É quase como voltar à aldeia do interior, onde os ritmos permanecem imutáveis. Pergunta-se: “Como está tudo?” E a resposta, invariavelmente, é: “Mais ou menos na mesma!”.

É inquietante que, num mundo em acelerada mudança, esta sensação de imobilismo persista. Parece que o tempo não passa. Em Portugal, o tempo não é valorizado — nem o nosso, nem o dos outros. E, no entanto, o tempo é um bem inelástico: não podemos comprimi-lo nem expandi-lo a nosso bel-prazer. Podemos, sim, evitar desperdiçá-lo. Mas, em vez disso, arrastamos decisões.

Associados à ideia de tempo estão os conceitos de timing e de ritmo. Em Portugal, o timing tornou-se uma chave para compreender as dinâmicas sociopolíticas. Veja-se o exemplo do Ministério Público, que invariavelmente escolhe um timing surpreendente para divulgar putativos casos sobre determinados candidatos — sempre a poucos dias das eleições. Os timings das notícias e o ritmo frenético do comentariado televisivo compõem a mesma partitura.

Podemos também falar do ritmo com que se degrada o Serviço Nacional de Saúde, ou das residências universitárias. Qual é o ritmo da reforma do Estado? E o ritmo da investigação à tragédia do Elevador da Glória? Os ritmos não podem ser ditados por calendários políticos ou interesses; devem nascer da convicção e da necessidade.

Se Portugal fosse uma orquestra, seria uma orquestra profundamente disfuncional, desalinhada nos tempos e nos ritmos. Cada naipe a tocar a sua própria melodia; melodias disjuntas convivendo numa polifonia caótica, como uma “Fuga de Bach” mal interpretada. Uma espécie de “Cravo mal temperado”.

O maestro projeta na orquestra as suas próprias limitações e invoca CR7 como paradigma de ritmo e timing, tentando incutir uma mentalidade que lhe falta. O resultado? Uma sinfonia cacofónica. Estão a dar-nos música — e de má qualidade, diria o meu caro Joaquim.

Mas aproxima-se um novo ano e a esperança, ainda que ténue, renova-se. Nesse espírito, desejo que, em 2026, Portugal valorize mais o tempo, acerte nos timings e recupere o ritmo dos bons propósitos. Que saiba equilibrar tempo de trabalho e tempo de lazer, e que defina timings e ritmos tendo sempre o bem comum como estrela do norte.

Que os maestros do ritmo português — atuais e vindouros — possam compor música que una na diversidade, inspire energia e conduza à ação pelo bem de Portugal.