Portugal-Espanha: ciência sem fronteiras

A ciência continua a promover o respeito pela opinião diferente ou contrária, a criação de ideias, o desenvolvimento da curiosidade, o trabalho em conjunto e a inexistência de fronteiras.

A história caracteriza-se pela migração das populações ao longo de milhares de anos. De facto, as civilizações mais desenvolvidas surgiram onde a interação entre as mais diversas culturas aconteciam com mais frequência.

As antigas regiões do Médio Oriente, a Índia, China e a Europa evoluíram essencialmente através do fluxo constante de migrantes que trocavam novas ideias e conhecimento. E a sua liberdade era definida pelo direito de poderem atravessar ou não várias fronteiras. Esta situação mudou quando a mobilidade passou a ser restringida para pessoas (soldados e civis) capturadas em guerra. A formalização deste processo estabeleceu-se com a criação do primeiro passaporte, introduzido pelos Romanos, para os chamados homens livres.

Mais tarde, durante o período renascentista, os governos tentaram aumentar o poder do estado. Nascia assim o nacionalismo que tinha como base a lealdade ao Estado. Os outros eram os estrangeiros e como tal criavam-se fronteiras.

Uma das fronteiras mais antigas é a que divide Portugal e Espanha. Conhecida como “A Raia”, a demarcação atual é praticamente idêntica à definida em 1297 pelo Tratado de Alcanizes. Apesar da proximidade linguística, cultural e geográfica, os 1214 km de fronteira foram ao longo dos séculos um empecilho constante à cooperação entre os dois países.

Alguns episódios de cariz internacional exigiram políticas esporádicas de colaboração para promover interesses comuns, mas foram seguidas de imediato pelo regresso à postura típica de políticas de oposição. Esta desconfiança entre os dois países da península Ibérica levou à aproximação da língua e cultura francesa a Portugal, à velha aliança com a Inglaterra, às poucas vias de comunicação entre os dois países e basicamente à inexistência de instituições geridas em modo de partilha.

Felizmente, nos dias de hoje, a situação é distinta. O reencontro iniciou-se por razões relacionadas com a construção da Comunidade Europeia. Portugal e Espanha aperceberam-se de que tinham muito mais em comum do que imaginavam, principalmente quando se comparavam com os restantes países da Comunidade Europeia.

Atualmente, tanto Portugal como Espanha têm criado assertivamente programas inter-regionais de colaboração, como por exemplo o Programa Operacional de Cooperação Transfronteiriço Espanha-Portugal (POCTEP), o qual promove o desenvolvimento ao longo da maior fronteira da União Europeia. Entre outros objetivos, o POCTEP pretende alavancar a investigação, o desenvolvimento tecnológico e a inovação, assim como melhorar a competitividade das pequenas e médias empresas.

Estes projetos multirregionais, onde se insere a NanoRIS3, que é uma Estratégia Multirregional de Especialização Inteligente em Nanotecnologia, englobam as oito regiões pertencentes ao território do POCTEP – Alentejo, Algarve, Andaluzia, Castela e Leão, Centro, Extremadura, Galiza e Norte – durante o período temporal 2019-2023. A NanoRIS3 nasceu como resultado do projeto NanoGATEWAY, liderado pelo Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia (INL) e com a colaboração das agências de desenvolvimento regional, assim como vários atores de todas as regiões do território do POCTEP.

Este tipo de estratégias transfronteiriças como a NanoRIS3 tem como objetivos incentivar a colaboração entre empresas, universidades e centros de investigação na área das tecnologias, potenciando assim a competitividade no território do POCTEP através do desenvolvimento e aplicação de soluções tecnológicas.

Para além disso, pretende-se fomentar a diversidade e forma de pensar diferente, promover a criação de novas empresas em Portugal e Espanha, atrair empresas “verdes” competitivas, nacionais e internacionais para o território POCTEP, bem como investigadores de todo o mundo. Em suma, estes projetos são capazes de criar massa crítica numa determinada área do conhecimento, como por exemplo a nanotecnologia, o que seria certamente mais complexo com fronteiras mais estanques.

No fundo, e tendo em conta o que resta de fronteiras, muros, racismo, xenofobismo e nacionalismo, a ciência continua a resistir a estas barreiras, promovendo o que é de enaltecer no ser humano: o respeito pela opinião diferente ou contrária, a criação de ideias, o desenvolvimento da curiosidade, a capacidade para trabalhar em conjunto e a inexistência de fronteiras.

Estes programas inter-regionais entre Portugal e Espanha como o programa POCTEP são um bom exemplo desta filosofia. No futuro, estas linhas imaginárias tenderão a desvanecer-se quando nos consciencializarmos de que o planeta é de todos e para todos.

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