As famílias residentes em Portugal dedicam entre 60% a 80% dos seus gastos a despesas essenciais. O rendimento que sobra depois destas despesas (rendimento discricionário) é 12 a 17 vezes superior entre as famílias mais ricas do que entre as mais pobres. Apesar do aumento do rendimento discricionário nos últimos anos, em 2022, 26% dos agregados gasta mais do que recebe. Nas famílias mais pobres esta proporção é significativamente mais alta, atingindo os 60%, enquanto nas mais ricas é de apenas 8%. Os dados são revelados no mais recente relatório ‘Portugal, Balanço Social: Perspetivas’ – ‘Quanto sobra ao final do mês? Despesas essenciais, inesperadas e poupança’ – elaborada pelos investigadores da Nova SBE Susana Peralta, Bruno P. Carvalho, Miguel Fonseca e Pedro Lopes no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social uma parceria entre a Fundação ‘la Caixa’, o BPI e a Nova SBE e com o apoio financeiro da IKEA Portugal, no contexto do projeto “Os orçamentos das famílias em Portugal”.
O estudo baseia-se nos dados do Inquérito às Despesas das Famílias 2022/2023 do Instituto Nacional de Estatística, complementado por um inquérito próprio realizado em 2024, para analisar quanto sobra às famílias em Portugal após o pagamento das despesas essenciais – o chamado rendimento discricionário. “Os resultados mostram que entre 2015 e 2022, o rendimento discricionário médio em Portugal aumentou de forma substancial (ou seja, o rendimento aumentou mais do que o custo das despesas essenciais). Ainda assim, e apesar de mais de 80% das famílias em Portugal apresentarem rendimentos discricionários positivos, apenas 49% a 66% dos mais pobres estão na mesma situação. Destes, cerca de 60% apresentavam poupanças negativas, o que evidencia que a melhoria da média nacional não elimina as situações de maior fragilidade económica”, revela o estudo.
Em 2022, o rendimento discricionário médio em Portugal situava-se entre os 10.402€ e os 13.379€/ano. Analisando a distribuição de rendimento, verifica-se uma forte desigualdade entre as famílias mais pobres (cujo rendimento discricionário médio varia entre 1.485€ e 2.393€ por ano) e as famílias mais ricas (que atingem um rendimento discricionário médio entre 24.973€ e 30.004€ por ano). Assim, os agregados mais ricos têm, em média, um rendimento discricionário 12 a 17 vezes superior aos dos mais pobres.
No mesmo ano, o custo total das despesas essenciais varia entre 9.381€ e 12.795€. Apesar de os mais ricos terem um montante superior de gastos em despesas essenciais, estas representam uma maior proporção da despesa total para os agregados mais pobres (65%, no cabaz restrito), o que compara com 53% para os mais ricos, no mesmo tipo de cabaz. Isto sugere que uma parte substancial do orçamento dos agregados é absorvida por despesas consideradas essenciais, o que limita substancialmente a capacidade de fazer face a despesas inesperadas e/ou de poupar, referem os investigadores.
O rendimento discricionário é o rendimento que sobra, deduzidos apenas os gastos essenciais. Em contraste, a poupança é o rendimento que sobra, deduzidos todos os gastos. Neste sentido, a poupança é uma medida conservadora da almofada financeira das famílias.
A relação entre rendimento e fragilidade financeira torna-se particularmente evidente quando se analisa a poupança monetária de acordo com os diferentes grupos de rendimento. A proporção de agregados com poupança negativa diminui de forma acentuada com o aumento do rendimento. Quase 60% dos agregados com rendimentos mais baixos apresentam poupança negativa, face a apenas 8% dos agregados com rendimentos mais elevados, o que mostra que os agregados de menores rendimentos dispõem de uma margem orçamental muito mais reduzida, limitando significativamente a sua capacidade de acomodar acréscimos inesperados de despesa.
Esta vulnerabilidade é realçada quando se analisa a capacidade de resposta a imprevistos. Apenas 64,3% dos inquiridos afirmam conseguir suportar uma despesa inesperada de 632€ sem recorrer a empréstimos – proporção que atinge 90% entre os agregados com rendimentos mais elevados, mas desce para apenas 23,6% entre as famílias com rendimentos mais baixos. Perante o cenário de uma despesa inesperada de mil eruros, quase 50% indica que recorreria a poupanças disponíveis, 14% a crédito e 11% pediria ajuda a familiares ou amigos. Entre os agregados de menores rendimentos, 34,2% não saberia sequer como reagir a uma despesa inesperada deste montante.
Ao nível regional, observam-se diferenças relevantes tanto no rendimento discricionário como na capacidade de poupança das famílias. Os agregados residentes em Lisboa registam o rendimento discricionário mais elevado, enquanto os Açores e a Madeira apresentam os valores mais baixos. Importa, contudo, salientar que, apesar de Lisboa concentrar o maior custo de despesas essenciais, os níveis de rendimento mais elevados asseguram, ainda assim, uma maior margem financeira às famílias aí residentes. Em paralelo, a proporção de agregados com poupança negativa é mais elevada no Algarve (29,1%), seguido do Norte (28,9%) e da Madeira (26,1%), ao passo que os Açores se destacam como a região com menor incidência de poupança negativa (18,8%). Estes dados indicam assimetrias territoriais significativas na solidez financeira das famílias, reforçando a importância de uma leitura regional das dinâmicas de rendimento e poupança em Portugal.
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