Portugal na cauda da Europa na sociodemografia do futebol

Mercado de trabalho do jogador de futebol na Europa é cada vez mais especulativo, com os dirigentes e agentes a procurar mais retorno financeiro no mercado de transferências, em detrimento de objetivos desportivos, diz estudo. Portugal é paradigmático.

Cada vez mais jogadores de futebol olham para a sua equipa como “um mero trampolim” para os mercados mais lucrativos, de acordo com uma análise demográfica ao mercado de trabalho dos futebolistas, na Europa, no acumulado entre 2009 e 2018, elaborada pelo CIES – Observatório do Futebol e divulgada este mês.

E em Portugal, como vê o jogador de futebol o mercado português, designadamente a primeira liga? Será um “trampolim” ou será considerado um terreno lucrativo para o futebolista profissional?

“Diria que é visto como um trampolim”, opina Ricardo Monteiro, jogador de 35 anos do Rio Ave, ao Jornal Económico. Conhecido dentro de campo como Tarantini, o atleta que desenvolve um projeto no âmbito da literacia financeira – A Minha Causa –  para atletas profissionais aponta: “Basta ver o número de anos que os jogadores fazem carreira consecutiva em Portugal. E não direi só jogadores, aos treinadores está a acontecer o mesmo”.

Há uma mudança comportamental no futebolista e o trabalho de longa duração do CIES, cuja análise inclui Portugal, conclui que na origem deste cenário está o facto de a maioria das equipas europeias estarem “voltadas para o curto prazo”.  O atual contexto futebolístico europeu está “cada vez mais segmentado e especulativo”, o que reflete a tendência de dirigentes e agentes desportivos procurarem, hoje, “otimizar o retorno financeiro no mercado de transferências, em detrimento de critérios eminentemente desportivos”.

O cenário pode ser problemático – não só pelo desempenho sociodemográfico que um clube de futebol profissionalizado pode ter na sua localidade, tendo em conta que o futebol é um desporto de massas, mas, sobretudo, pelos impactes negativos provocados no mercado de trabalho do jogador de futebol profissional.

Perante o quadro descrito pelo CIES, qual é o cenário do mercado de trabalho do futebolista em Portugal? 

“Somos o segundo país da UEFA com menor número de jogadores formados nos clubes portugueses [7,7%, só à frente de Itália]; somos o quinto país com maior número de estrangeiros não formados em Portugal [61,3%], estando esta tendência a crescer de forma acentuada [1% ao ano]; e somos o sexto país com maior taxa de rotatividade do plantel [52.4%], sendo a boa notícia que este crescimento está praticamente estagnado. Isto acontece porque o negócio do futebol português está assente na transferência de jogadores e não no produto jogo de futebol. De uma forma generalista, os nossos dirigentes não têm formação de gestão desportiva e, por conseguinte, competência para conseguirem planear o rumo de uma equipa de futebol a três anos e não ceder ao popularismo e resultados desportivos. Esta última ideia ganha especial negatividade quando sabemos que os nossos treinadores têm essa competência e existe uma cultura de talento futebolístico nas nossas formações”. A resposta é do professor e diretor da Faculdade de Ciências da Saúde e do Desporto da Univerisdade Europeia, Luís Vilar, que evidencia o posicionamento de Portugal na sociodemografia da UEFA, espelhada na análise do CIES.

Tarantini, por sua vez, observa a situação pela experiência de quem está dentro das quatro linhas: “O mercado de trabalho do futebolista, em Portugal, carece ainda mais de força e estabilidade financeira na perspetiva de fixação do jogador português nos seus clubes, no campeonato e no país”.

A questão ganha maior complexidade e urgência na sua resolução, uma vez que para o jogador, “em Portugal, nos últimos anos, existe um grande frenesim na esfera dos futebolistas com vista à sua emigração. Todos procuram sair a ganhar, o campeonato fica a perder”.

As opiniões de Vilar e Tarantini vão ao econtro de outra das conclusões do CIES: de que o mercado de trabalho dos futebolistas no Velho Continente “está a tornar-se desterritorializado pela presença descrescente de jogadores da formação nos clubes, em virtude de uma proporção mais elevada de futebolistas estrangeiros e uma maior mobilidade”.

No caso português, Luís Vilar aponta também a relação histórica e cultural com o Brasil para explicar o número elevado de atletas estrangeiros a atuar na primeira liga nacional, uma vez que do outro lado do Atlântico há “um viveiro de talentos futebolísticos, cuja dimensão da liga e economia do país é propensa à emigração”.

Em contrapartida, assumindo que “a diferença salarial dos clubes ditos grandes para todos os outros atraem nestes os melhores jogadores”, segundo Tarantini, “o fator financeiro está a levar, quer os melhores quer muitos jogadores portugueses a tentar a sua sorte no estrangeiro”.

Assim, prossegue o atleta do Rio Ave, “a procura desesperada, pelo sucesso rápido e consequentemente de melhores condições de trabalho, faz com que alguns jogadores não avaliem com um certo grau de confiança os projetos desportivos que lhes colocam à frente”. Resultado: “nem todos têm tido sucesso”.

Esta é uma situação instável que prejudica a competitividade desportiva dos clubes e, por conseguinte, dos campeonatos nacionais, “em beneficío” – argumenta o CIES –  “dos clubes mais ricos e melhor estruturados, que dominam cada vez mais os procedimentos [do futebol]”.

No caso português, Luís Vilar acredita: “não temos forma de ser competitivos se não for pela exportação de jogadores de futebol. Agora, julgo que a balança entre exportar formação interna ou exportar formação externa – o tal trampolim – deve pender mais para o primeiro – e não pende -, pois o risco da operação é menor. Por exemplo, o Benfica está estrategicamente a tentar fazer este caminho”.

O quadro parece não ser o melhor para o desenvolvimento das competições internas naiconais. Haverá forma de mudar o cenário?

“A globalização chegou a todas as indústrias, e ao futebol também. Ou seja, o incremento é algo perfeitamente natural contra o qual não vale a pena lutar. Porém, o problema não está na quantidade de estrangeiros mas sim na qualidade dos estrangeiros. Parece-me que existem muitos jogadores importados cuja competência técnico-tática é inferior aos que já cá estão, e que acabam por ser esquecidos. Culturalmente, acreditamos que santos da casa não fazem milagres. Parece-me óbvio que o caminho é legislar a qualidade da importação de talento, tal como a Premier League já fez. Contudo, poderão existir contrangimentos legais importantes a respeitar. Não é fácil, mas fica ainda mais difícil quando não existe vontade dos nossos dirigentes”, salienta o diretor da Faculdade de Ciências da Saúde e do Desporto da Univerisdade Europeia.

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