Portugal, uma perspectiva botânica

Seria importante redigir e implementar uma “Lei do Património Vivo”, que apoiasse activamente todos os Portugueses que mantêm vivas as técnicas e as artes tradicionais, reconhecendo o seu valor e perseverança.

A História de Portugal está indelevelmente ligada às plantas, tanto nativas como exóticas, já que foi na primordial floresta de carvalhos, que outrora cobria o nosso país, que os portugueses encontraram, por exemplo, os recursos naturais necessários à construção das caravelas e das naus que permitiram as viagens transcontinentais. Estas viagens oceânicas – um período notável da história nacional –, foram motivadas não só por questões políticas e religiosas, mas também pela procura de especiarias. O interesse pelas especiarias residia nas suas intrínsecas e únicas propriedades organolépticas (cor, aroma, sabor), e, também, na crença que as mesmas provinham de territórios próximos do Jardim do Paraíso descrito no Génesis, o primeiro dos muitos livros que constituem a Bíblia.

A flora portuguesa nativa não tinha muitas plantas que pudessem ser utilizadas em alimentação, à excepção de bolotas (azinheiras), frutos silvestres (amoras, cameirinhas, etc.) e de algumas herbáceas que permitiam uma alimentação muito frugal. A introdução da agricultura, embora tenha causado uma dramática alteração do coberto vegetal, permitiu o início de um fluxo contínuo e previsível de hidratos de carbono (cereais) e de proteínas (leguminosas) que possibilitou o avanço socioeconómico e cultural. Aliás, a agricultura é sempre a base de todas as civilizações, que são, por sua vez, as formas mais sofisticadas e complexas de organização humana. Não há registo de civilizações sem agricultura como fonte primária de recursos.

Os romanos trouxeram até nós formas mais produtivas de organização agrícola, tal como, posteriormente, os muçulmanos, que introduziram plantas asiáticas no Sul de Portugal, como a laranjeira-amarga e a alfarrobeira, árvores que tiveram especial importância na história económica do Algarve – a região portuguesa que durante mais tempo se manteve sob administração dos povos islâmicos. A laranjeira-doce foi introduzida apenas no século XVI, quando os Portugueses a trouxeram da Ásia. A partir do nosso país, esta árvore seguiu para outras nações europeias, daí que, em algumas línguas, o nome do fruto tenha ficado, etimologicamente, ligado a Portugal: portokáli (grego), portokalli (albanês), portocale (romeno), etc..

Durante os séculos xvi e xvii, a Europa assistiu à introdução de plantas provenientes dos Novos Mundos que os Portugueses e os Espanhóis encontraram na Ásia e nas Américas, e foi durante esse período que se introduziram plantas americanas, como o milho, a batata, o tomate, o pimento e o tabaco, que, nos séculos seguintes, seriam integradas nas nossas práticas agrícolas e, hoje, têm elevada importância económica e cultural, nomeadamente o milho (Minho) e as batatas (Trás-os-Montes).

Até ao século xx, a sociedade portuguesa foi maioritariamente rural e todas as actividades diárias se desenvolviam em torno das plantas, sendo necessário um amplo conhecimento sobre as suas propriedades e usos, não apenas alimentares, mas também medicinais e outros. A questão das plantas medicinais é interessante porque está ligada às relações ecológicas que estas mantêm com os animais. Ao contrário dos animais, as plantas não conseguem evitar a predação recorrendo a estratégias de defesa activas (fuga, contra-ataque, mimetismo, etc.) e, perante esta impossibilidade, produzem um arsenal químico que visa afastar os predadores, e é nesta diversidade química que os humanos encontraram muitos dos compostos (morfina, codeína, digitoxina, quinina, vimblastina, etc.) que estão na origem dos medicamentos contemporâneos.

A legislação portuguesa cedo começou a proteger a natureza, embora a sua implementação não fosse tarefa fácil. Recordemos a Lei das Árvores, promulgada em 1565, que obrigava à arborização de terrenos incultos, baldios e terras particulares com espécies autóctones, ou, em 1938, o decreto-lei (revogado em 2012) que protegia as árvores de interesse público e que foi a primeira legislação europeia, neste domínio. Portugal foi, também, o país da Europa no qual a transição entre a desarborização e a reflorestação foi mais rápida, já que em 1870 a área florestada correspondia a cerca de 7 % do território, e, um século depois, alcançava cerca de 30 % da superfície continental (actualmente, 35 %).

Uma das consequências mais profícuas da nossa relação com a natureza é a cultura imaterial (tradições, festas, lendas, literatura) e a cultura material (artefactos feitos a partir de matérias-primas de origem vegetal). Na primeira, incluem-se inúmeros exemplos, como: (1) as insígnias nacionais, com a esfera armilar rodeada por ramos de loureiro [Decreto n.º 150, de 30 de Junho de 1911]; (2) o sobreiro como árvore nacional [Resolução da Assembleia da República n.º 15/2012]; (3) a simbologia religiosa [por exemplo, a maçã como símbolo de pecado (nas mãos de Adão) ou de redenção (nas mãos de Cristo)]; (4) os cravos, como símbolo da Revolução de Abril de 1974; (5) as castanhas piladas para afastar os «maus espíritos»; (6) as maias (Sul de Portugal) e os maios (Norte de Portugal); (7) a Festa das Rosas, em Vila Franca do Lima; (8) a espiga colhida durante a Quinta-Feira da Ascensão; (9) os crisântemos associados ao culto dos mortos (2 de Novembro); (10) os tabuleiros decorados com pão e flores (Festa dos Tabuleiros, Tomar), (11) as plantas associadas aos Santos Populares, em Lisboa (manjerico) e no Porto (alho-porro), e às fogueiras (alecrim, rosmaninho); (12) a antroponímia relativa aos apelidos [Avelar (avelã), Azevedo (azevinho), Cardoso (cardo), Junqueira (junco), Macedo (maçã), Silva (floresta), Teixeira (teixo), Zambujal (zambujeiro)] e (12) a toponímia [Funchal (devido à abundância de funcho), Ilha do Faial (devido à semelhança entre a faia-das-ilhas e a faia), Figueira da Foz, Lourosa (loureiro), Sabugal (sabugueiro), Silves (aludindo aos bosques e florestas que rodeavam o antigo povoado), e alguns topónimos que se repetem em várias regiões (Abrunheira, Amendoeira, Amoreira, Carvalhal, Salgueiro, Souto)].

A cultura material inclui objectos feitos a partir de plantas, que se utilizam para fins específicos, em geral dentro de um contexto rural, e que têm sido preservados como «símbolos regionais», como: (1) os palitos de Lorvão feitos com madeira de choupo ou de salgueiro, que se utilizavam para decorar bolos; (2) as esculturas de «miolo de figueira», feitas com o interior dos ramos jovens de figueira, e os bordados de «palha de centeio», ambos típicos da ilha do Faial; (3) os bordados de castanha de Marvão, nos quais se bordam as «cascas» das castanhas a tecidos de linho; (4) o escrinho e a breza da Beira Alta e Trás-os-Montes, que são objectos feitos com a palha de centeio e as «cascas» das silvas que produzem as amoras-silvestres; (5) as máscaras de amieiro de Lazarim, para as festividades do Carnaval; (6) os paulitos dos Pauliteiros de Miranda, feitos em madeira de freixo, e as ponteiras das gaitas-de-foles feitas com madeira de buxo ou de enguelgue; (7) os artefactos de cortiça (Alentejo); (8) a arte pastoril das regiões nas quais se praticava a transumância de ovinos (Beiras e Alentejo); (9) as croças (capotes) de juncos, típicas da região do Barroso, (10) os cesto de canas e de folhas de palmeira-anã  (Algarve); (11) o artesanato em vime (salgueiro) da Beira Alta e da Ilha da Madeira e (12) os chapéus de palha de centeio, feitos na região de Fafe.

Todas as tradições derivam de necessidades sociais e culturais específicas, definidas para um determinado tempo, e estão, como os seus criadores, destinadas a desaparecer, mas seria lamentável que perdêssemos parte do nosso património etnobotânico (uso cultural das plantas), devido a um transitório desinteresse causado pelos inexoráveis efeitos da globalização. A salvaguarda deste património é possível se lhe atribuirmos um novo estatuto, não necessariamente ligado ao uso funcional, mas ao seu significado cultural, que evolui e se adapta, agindo como factor identitário de coesão social.

Conhecer a nossa herança etnobotânica seja ela material ou imaterial, é uma condição primordial para a sua preservação. Em Portugal, há regiões nas quais os estudos etnobotânicos se encontram em franco desenvolvimento, como em Trás-os-Montes (Instituto Politécnico de Bragança) ou em Beja, onde o Instituto Politécnico criou um Museu Botânico (2002) que tem, entre os seus objectivos fundacionais, contribuir para a salvaguarda e divulgação do património etnobotânico nacional.

Uma decisão que, certamente, contribuiria para valorizar o nosso património etnobotânico seria redigir e implementar uma Lei do Património Vivo, que apoiasse activamente todos os Portugueses que mantêm vivas as técnicas e as artes tradicionais, reconhecendo o seu valor e perseverança, assim como o seu papel de inestimáveis guardiães de um património que se deseja preservar, usufruir e legar.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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