Pós-verdade, neo-tribalismo e estupidez

Na idade da informação em que vivemos, é importante compreender alguns conceitos de estatística que ajudam a que não se caia em argumentos baseados em números manipulados.

O Dicionário de Cambridge define “pós-verdade” como “uma situação na qual as pessoas terão maior probabilidade de aceitar um argumento baseado nas suas emoções e crenças, em vez de um baseado em factos”. Basicamente, é uma forma colectiva de estupidez que resulta da incapacidade de uma grande parte dos indivíduos de processar analiticamente a realidade e, ao invés de tentarem aprender e corrigir esta falha, refugiam-se em ideias estapafúrdias e deixam-se levar por falácias óbvias.

O pós-verdade, na minha óptica, relaciona-se bastante com o pós-modernismo e a ideia de que a verdade não será absoluta, remetendo antes para um conceito dependente das interpretações e vivências de cada um. São os “factos alternativos” que Kellyanne Conway mencionou na ABC ao ser questionada acerca das declarações do porta-voz de Trump (que conseguiu mentir na primeira vez que falou ao público).

Esta é a mais proeminente faceta do pós-verdade: um completo e total desprezo pela veracidade e rigor nos factos. Neste caso, Kellyanne fez um favor à Humanidade e referiu-se a “factos alternativos”, um conceito que qualquer pessoa com dois neurónios funcionais perceberá que é, em si mesmo, uma contradição. É um pouco como dizer à nossa esposa que não a andamos a trair, só temos uma “namorada alternativa”.

Esta entrevista é uma pérola do pós-verdade e uma fonte de óptimos exemplos desta péssima corrente política. Kellyanne usa a seguir uma outra ferramenta abundante na retórica dos dias de hoje, o whataboutismo: perante a constatação da mentira descarada que tentava promover, Conway desvia o assunto desferindo ataques a Obama, como se isso estivesse relacionado com a barbaridade que proferiu.

Esta é uma manobra de diversão frequentemente usada na pseudo-discussão política dos nossos dias, e falo também ao nível do eleitor – as pessoas parecem achar que, por um lado, os erros ou más acções de um agente desculpam as de outro e, por outro, que a constatação de um resultado previsível equivale ao desejo que esse resultado se verifique. Não, se eu matar alguém não me torno menos criminoso porque há pessoas que, além de matarem, violam e desmembram; e não, eu constatar que a China vai ocupar o lugar de principal potência mundial caso os EUA continuem a sua espiral descendente não equivale a desejá-lo. Prever e desejar não são sinónimos.

A facilidade com que uma grande parte da população cai nestas armadilhas é gritante. Eu percebo, pensar custa e Filosofia, enquanto disciplina do secundário, é frequentemente um martírio. Mas uma boa parte deste pensamento falacioso provém da incapacidade dos indivíduos terem empatia por casos distantes da sua realidade. Ultrapassa a estupidez ver os chamados ‘retornados’, eles também refugiados das ex-colónias, a destilar ódio em relação ao acolhimento de migrantes e refugiados por parte de países europeus. No fundo, estas pessoas revoltam-se com a sua própria condição, projectando a raiva que sentiram pela injustiça que tiveram de viver noutros que, anos mais tarde, atravessam o mesmo calvário.

A empatia é substituída por ódio e surgem as tribos do século XXI, este estado neo-tribal em que vivemos, em que malta que em Portugal votaria CDS, um partido supostamente cristão e com preocupações sociais, se acha Republicano na América porque “é a direita”.

Essencialmente, procuram-se afinidades de nome, em vez de afinidades de ideias (sendo que, na América, nem os conservadores percebem ideologia, visto que acham que direita e liberdade são compatíveis com tarifas, um ícone do socialismo). É um pouco como eu, que sou portista, apoiar na Holanda o Den Bosch, um clube da segunda divisão sem qualquer palmarés relevante, mas que equipa de azul e branco e tem dragões no símbolo. No futebol, a irracionalidade é tolerável; na política, leva a graves problemas sociais.

Outra falha enorme que leva à adesão a estes movimentos ocos, sem conteúdo factual, racistas e, em geral, estúpidos é a incapacidade de compreender estatística. Na idade da informação em que vivemos, com milhões de gigabytes de informação criada a qualquer minuto, é importante compreender alguns conceitos de estatística que ajudam a que não se caia em argumentos baseados em números manipulados.

A pandemia de Covid-19 tem ajudado a isso, com algumas pessoas a aperceberem-se que a metodologia de investigação interessa, mas a ignorância em relação a estes assuntos continua a predominar. Por exemplo, é normal que na América os homicídios de afro-americanos sejam, na sua maioria, causados por outros afro-americanos, visto que, normalmente, as comunidades têm uma etnia predominante e, por isso, afro-americanos vivem e convivem com outros afro-americanos.

Surpresa: os homicídios de caucasianos são, na sua maioria, praticados por caucasianos! Fantástico, não é? Chama-se viés de selecção (selection bias). Mais uma: o facto de haver quase o dobro de civis caucasianos do que afro-americanos assassinados pela polícia não refuta a ideia de racismo institucional num país em que a população afro-americana é apenas 13,4% do total, enquanto a caucasiana constitui 76,5%. Outra: a refutação de uma generalização não equivale a uma generalização da refutação. Em linguagem mais simples: se eu disser que nem todos os cisnes são brancos porque há cisnes pretos, quem é a mente brilhante que me vai acusar de dizer que os cisnes são pretos? Vá lá, não tenham vergonha de ser idiotas! Fico à espera.

É complicado discutir com pessoas que não aceitam factos na desconstrução das suas teses mirabolantes, assustadas e preconceituosas. É um pouco como lutar contra o Daesh: é difícil derrotar um inimigo que diz não temer a morte. Para a malta das alt-rights, das teorias da conspiração, dos Pizzagates e dos QAnons, a confrontação que qualquer ser pensante lhes faz com factos é, em si mesmo, uma validação das suas teorias.

Para um qualquer troll cibernáutico, é irrelevante se a dois cliques de distância se pode comprovar que determinado autor não promove nenhuma agenda partidária (e até ataca igualmente todos os quadrantes políticos): naquela pequena amostra, o visado foi o seu clube, a sua tribo, e, por isso, aquele texto é propaganda, é fake news, é lavagem cerebral promovida “pelos outros”, pelo inimigo. Para um revoltado de teclado, é legítimo indignar-se se não tiver tropeçado no seu feed de Faceebook numa qualquer notícia que lhe convém reproduzida pelos meios mainstream – mas verificar se, de facto, estes órgãos não partilharam tal notícia não parece ser uma opção antes de comentarem contra “os media liberais e marxistas culturais”. Basta escrever no Google. Demora menos de um minuto.

Ao fazer campanha (baseada em argumentos assumidamente falsos) para o seu país abandonar a União Europeia, Michael Gove fez questão de explicitar a sua imbecilidade (e a dos que o apoiaram) ao declarar que “os britânicos já estavam fartos de especialistas”. Deve ser o género de tipo que, face a um problema de saúde que requer cirurgia, em vez de consultar médicos vai ao pub ouvir as experiências dos seus amigos bêbados quando foram operados. Já dizia um bem mais competente seu antecessor, “a democracia é a pior forma de governo, excepto todas as outras”. Eu já estou à espera da tecnocracia. Ou do apocalipse.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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