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Preocupação com o cenário político europeu penaliza mercado de dívida e de ações

O ouro, um ativo considerado um porto seguro em tempos de crise, atingiu 3.501,59 dólares (2.993,18 euros) por onça (equivalente a 31,1 gramas), superando o recorde anterior de 3.500,1 dólares (2.992,22 euros) estabelecido em meados de abril, na altura impulsionado pela incerteza em torno da política comercial dos EUA.
Alex Grimm/Reuters
3 Setembro 2025, 07h00

As bolsas europeias fecharam em forte queda esta terça-feira, devido ao aumento dos juros da dívida soberana do bloco europeu, que afetou o apetite por ativos de risco, como as ações.

Este início de semana foi marcado por um agravamento das yields das obrigações, com destaque para os títulos de prazo muito longo. Refletindo as preocupações com a dinâmica da dívida pública, a taxa das obrigações a 30 anos atingiu máximos desde a crise do euro (2011) em França e Alemanha e o nível mais elevado desde 1998 no Reino Unido.

Os investidores adotam uma postura mais cautelosa perante os riscos que os mercados enfrentam em setembro, um mês historicamente negativo para as bolsas.

A postura defensiva também é validada pela valorização do ouro, que já atingiu um novo máximo histórico.

O Stoxx 600 perdeu 1,47% e o EuroStoxx 50 recuou 1,36% para 5.293,90 pontos, refletindo a preocupação dos investidores com o panorama político europeu, em particular com o colapso iminente do governo francês após a falha na implementação de medidas de austeridade.

O DAX liderou as quedas na Europa, ao recuar 2,29% para 23.487,3 pontos. Já o francês CAC desceu 0,70% para 7.654,25 pontos. O italiano FTSE MIB recuou 1,61% para 41.727,58 pontos e o britânico FTSE 100 perdeu 0,87% para 9.116,69 pontos. Por sua vez, o espanhol IBEX caiu 1,57% para 14.704,2 pontos.

“As bolsas europeias encerraram em queda, com correções transversais a todos os setores, incluindo o Energético, que até assistiu a uma subida dos preços do petróleo”, destacam os analistas da MTrader.

“O foco do mercado esteve nos dados da inflação da zona euro. A inflação tem permanecido em torno dos 2%, em linha com o objetivo do BCE, mas as expectativas dos consumidores continuam acima desse nível, com a projeção para 12 meses nos 2,6%. Esta leitura será determinante para as apostas em futuros cortes de taxas para a moeda única, que ajudariam a sustentar a economia europeia”, defende Henrique Valente, analista da ActivTrades Europe.

O PSI também fechou a cair -1,71% para 7.677,58 pontos. As ações da EDP Renováveis lideram as perdas ao tombarem -3,04% para 9,90 euros. Seguidas da EDP, que recuou -2,13% para 3,726 euros; e dos CTT, que perderam -2,59%, fechando a cotar nos 7,15 euros. A REN desceu -1,84% para 2,930 euros; a Galp deslizou -1,56% para 16,44 euros; a Mota-Engil caiu -1,78% para 4,852 euros.

Todos os 15 títulos do PSI fecharam em queda. O que caiu menos foi a Jerónimo Martins, que perdeu -0,75% para 21,18 euros.

Preço do ouro ultrapassa 3.500 dólares por onça e fixa novo recorde

O preço do ouro continua a quebrar máximos históricos, voltando a ultrapassar hoje o valor de 3.500 dólares a onça na Ásia, superando o anterior recorde, fixado em abril.

O ouro, um ativo considerado um porto seguro em tempos de crise, atingiu 3.501,59 dólares (2.993,18 euros) por onça (equivalente a 31,1 gramas), superando o recorde anterior de 3.500,1 dólares (2.992,22 euros) estabelecido em meados de abril, na altura impulsionado pela incerteza em torno da política comercial dos EUA.

Os investidores estão a comprar ouro, evitando o dólar norte-americano, face às expectativas de um corte nas taxas de juro dos Estados Unidos e às preocupações com a independência da Reserva Federal norte-americana, conhecida como Fed.

O mercado espera, de qualquer forma, um corte de 0,25 pontos percentuais na próxima reunião da Fed, a 16 e 17 de setembro. Uma expectativa que enfraquece o dólar e os rendimentos das obrigações, também considerados portos seguros.

Os rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano prolongaram a sua recuperação pelo segundo dia consecutivo, com os títulos a 10 anos a subirem acima dos 4,27%.

Um tribunal federal de recurso dos EUA decidiu na sexta-feira que grande parte das tarifas impostas por Donald Trump às importações é ilegal.

De acordo com o Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, as tarifas recíprocas serão confirmadas pelo Supremo Tribunal, depois de um tribunal federal de recurso ter reafirmado uma decisão anterior segundo a qual as tarifas foram impostas ilegalmente e abusaram dos poderes de emergência presidenciais. Bessent sublinhou que o fentanil e os déficits comerciais crescentes são verdadeiras ameaças nacionais que devem ser abordadas.

Desde o início do ano, o valor do ouro aumentou cerca de um terço, por entre incertezas geopolíticas – face às guerras na Ucrânia e na Faixa de Gaza – e comerciais, devido à guerra tarifária lançada por Trump.

Nos EUA, a revelação de que a atividade industrial aliviou o ritmo de contração em agosto, com sinais positivos, como o regresso à expansão nas novas encomendas, mas nem isso animou os investidores. Wall Street acompanhou as perdas na Europa, com o índice S&P 500 a liderar as perdas, após o anúncio de um gasoduto que entregará 50 mil milhões de metros cúbicos de gás russo por ano à China.

O dólar norte-americano apresentou resiliência esta terça-feira, valorizando face ao euro, com os investidores cautelosos face a um calendário macroeconómico pesado.

O mercado aguarda com ansiedade os dados do emprego dos Estados Unidos na sexta-feira, que serão determinantes para a evolução dos ativos cotados este mês e vão moldar as decisões de política monetária que a Fed vai adotar na reunião de 17 de setembro.

Os futuros do petróleo Brent subiram +1,36% para 69,08 dólares. O crude WTI subiu mais ainda, ao avançar +2,47% para 65,59 dólares.

Donald Trump anunciou ontem a mudança do Comando Espacial para o Alabama, revertendo a decisão do ex-presidente Biden de manter o comando no Colorado.


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