Presidente da Guiné-Bissau acusa Governo de desvio de dinheiro para campanhas

O Presidente da Guiné-Bissau e recandidato nas eleições presidenciais de 24 de novembro acusa o atual Governo de financiar campanhas eleitorais com dinheiro do Estado, questionando o destino de cerca de 16 milhões de euros em títulos do Tesouro.

Regis Duvignau / Reuters

“O Governo faz a emissão de títulos de Tesouro num montante aproximado de 20 biliões de francos CFA, significa 32 milhões de euros. Desses, 16 milhões já receberam na primeira tranche e eu pergunto: para onde levaram esse dinheiro, esse dinheiro é para quê” – questiona José Mário Vaz, em entrevista à agência Lusa em Lisboa.

Referindo que o executivo “não paga salários a tempo e horas”, o chefe de Estado manifesta também dúvidas sobre o destino das verbas que o Governo arrecada através da Direção-Geral das Alfândegas, da Direção-Geral de Contribuições e Impostos, dos fundos autónomos ou do apoio orçamental.

E acusa: “O dinheiro que devia ser utilizado nas escolas, nos hospitais, nas infraestruturas, no saneamento básico, esse dinheiro está a ser desviado para o financiamento das campanhas”.

O Governo da Guiné-Bissau é liderado pelo Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), vencedor das eleições legislativas de março deste ano, mas sem maioria, tendo-se depois coligado com a Assembleia do Povo Unido – Partido Democrático da Guiné-Bissau (APU-PDGB), Partido da Nova Democracia e União para a Mudança.

Questionado sobre como vai financiar a sua campanha, uma vez que concorre como independente, José Mário Vaz refere que vai “pedir apoios”, tal como fazem os outros candidatos, mas que será uma “campanha pobre”, “sem opulência”.

“Há candidaturas que têm muito dinheiro, muito dinheiro mesmo […] mas ter dinheiro não significa ganhar as eleições, sobretudo quando o dinheiro é o dinheiro do tesouro público”, diz Jomav, nome pelo qual é conhecido, manifestando a confiança de que “o povo irá castigar as pessoas que utilizam incorretamente os seus recursos”.

Instado a comentar as acusações de Domingos Simões Pereira, candidato apoiado pelo PAIGC, de que faz entrar no país dinheiro de origem duvidosa, José Mário Vaz respondeu: “Dinheiro de origem duvidosa eu não conheço”.

E devolve as acusações, referindo que Domingos Simões Pereira paga, sobretudo a jovens, “para dizer mal do Presidente”, “tanto em Portugal como na Guiné-Bissau”.

“Eu sou um empresário de sucesso, mas só tenho uma casa em Portugal e ele, num curto espaço de tempo, em seis ou oito meses, já tem muitas casas aqui em Portugal”, continua.

Sobre o facto de Domingos Simões Pereira ser apontado pelos adversários como o candidato apoiado pela comunidade internacional, José Mário Vaz diz que não está preocupado.

“Não são os estrangeiros que vão votar na Guiné-Bissau, votam os guineenses”, diz, admitindo, no entanto, que esse apoio “pode ter uma ou outra influência sobre o voto”.

Questionado sobre motivo de, durante o seu mandato de cinco anos, o país ter tido sete primeiros-ministros, o Presidente justificou com a necessidade de garantir que “a paz, a tranquilidade e a liberdade” eram preservadas e com o combate à corrupção.

“Quando o dinheiro do Estado não vai para o cofre do Estado, quando vai para o bolso das pessoas, torna-se impossível concretizar o sonho de um povo”, diz, referindo-se à corrupção, que admite não ter conseguido combater ainda.

Sublinhando que na altura em que foi ministro das Finanças do Governo liderado por Carlos Gomes Júnior, deposto pelo golpe de Estado de 2012, conseguiu pagar salários e reduzir a dívida externa porque impôs “rigor, disciplina e firmeza na gestão da coisa pública”, José Mário Vaz diz que hoje o país tem “situações complicadas na educação, na saúde, nas estradas, na agricultura, na energia, na água”.

“Eu pergunto, são esses primeiros-ministros que nós queremos? São esses governantes que nós queremos? Que não pensam no país, não pensam no povo”, acusou, referindo que os governos dos últimos anos “fizeram o país andar para trás”.

Sem apontar nomes, o Presidente considera que “as pessoas preocupam-se mais com a sua vida pessoal, com a família e com os amigos”, defendendo que “essa não é a essência no exercício do cargo público”, mas sim “servir o país e servir o povo”.

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