Produção nada fictícia

Pretendendo subsidiar a Informação, estes 15 milhões atribuídos às empresas de comunicação social, vieram, de facto, sobretudo ajudar a pagar programação televisiva.

1. A questão do financiamento do Governo às empresas de comunicação social, via compra de publicidade institucional, relembra-me que o secretário de Estado da tutela, Nuno Artur Silva, vendeu uma empresa a um familiar para poder driblar uma incompatibilidade: aquela que o impediu de continuar num cargo no conselho de administração da RTP, mas não o inibe agora de prosseguir a carreira de devoto servidor da causa pública. Por isso, não fico surpreendido com a nublosa a envolver os critérios que dão milhões a uns e dezenas de milhares a outros.

Tudo terá a ver com criteriosas ponderações matemáticas assentes em circulação, investimento homólogo e outras razões científicas. Ou seja, goste-se ou não, Rui Rio tem razão: valem os reality shows das televisões, os programas da manhã e o investimento publicitário que os acompanha. É aí que está a audiência e o dinheiro. E, curiosamente, a crise. Porque, tal como no futebol, nos grupos dominados pela televisão o dinheiro nunca chega para pagar o devido valor das enormes ‘estrelas’, das ‘fantásticas’ equipas.

2. Pretendendo subsidiar a Informação, estes 15 milhões atribuídos às empresas de comunicação social vieram, de facto, sobretudo ajudar a pagar programação televisiva. Um erro, que se presta também à primeira suspeição: a do favorecimento às empresas dos telejornais. O Estado, mesmo que por via indireta, já tem a RTP. Agora despeja a parte de leão (quase sete milhões dos primeiros 11,2, porque o resto irá para a imprensa regional) sobre a Impresa (SIC) e a Media Capital (TVI).

É esta lógica perversa que possibilita que o grupo onde está a “Caras” (‘Trust in News’) valha nestes critérios quase seis vezes mais do que o Observador. Vai receber 406 mil euros, quase tanto como o Grupo Renascença (480 mil), o que é extraordinário e revelador da perspetiva deste apoio à comunicação social. Nem quero imaginar o que teria acontecido se Bruno Nogueira tivesse arranjado uma empresa para tutelar o seu ‘como o bicho mexe’…

Junte-se-lhe o engano na atribuição da verba ao Observador (um projecto editorial com posicionamento de opinião à direita), curiosamente retificado depois da renúncia daquela marca aos 19.906,29 iniciais (para 90.568,98!) e estamos já no domínio da segunda suspeição.

3. O terceiro caso de suspeita, por estes dias, surgiu com a dispensa de André Ventura da Cofina, grupo que irá receber 1,691 milhões de euros. A terceira contribuição mais importante. Uma empresa de comunicação tem todo o direito de contratar e dispensar colaboradores. É tão legítima uma ação como a outra. O problema está no timing, que na leitura mais benigna é muito pouco inteligente e se presta a estabelecer relações de causa e efeito com a circulação do dinheiro do Estado. Mais uma vez, e em época de um governo de ‘esquerda’, o problema passa-se ‘à direita’.

(Já agora: há por aí muita gente satisfeita por ver André Ventura perder um palco, mas este caso até o favorece, não só porque o vitimiza como, por outro lado, o retira da exposição pública numa dimensão que o prejudica enquanto candidato com ambições políticas).

4. Todo este processo deveria ser considerado inimigo público da transparência, um exemplo de como se pode fazer muito mal ao serviço de uma boa ideia. Já aqui o defendi: o modelo de negócio dos media está a desfazer-se e, por isso, tendo-se agravado a situação em virtude da pandemia originada pela Covid-19, as empresas devem ter apoios.

A informação credível é estruturante da vida democrática. Neste momento, deve ser apoiada tanto pelo lado da compra de publicidade pelo Estado (que existia antes do advento da internet e depois foi substituída por anúncios nos sites dos ministérios), como pelo lado da fiscalidade e outros incentivos. O importante é que este processo tivesse decorrido nos antípodas desta produção nada fictícia, com critérios à prova de bala. Não foi, não é o caso.

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