PSD/Chega, namoro ou ‘flirt’?

A aproximação descarada de Rui Rio a André Ventura tem o seu quê de oportunismo político e, ao mesmo tempo, de assombro de realidade

1. A aproximação descarada de Rui Rio a André Ventura tem o seu quê de oportunismo político e, ao mesmo tempo, de assombro de realidade. Vamos por partes. O PSD colou-se desde a liderança de Rui Rio a grande parte das medidas e das práticas políticas de António Costa, desde o apoio declarado no OE e aliança, para muitos escandalosa, do fim dos debates quinzenais, até ao cultivar do apoio mais ou menos explícito durante a pandemia, o que valeu a Rio elogios por essa Europa fora, em especial do Podemos, partido de extrema-esquerda em Espanha.
Num momento em que se percebe que grande parte das medidas que António Costa adotou estão a chegar ao fim ou perto disso, os apoios no lay-off, as moratórias às empresas e famílias, entre outras medidas, e ainda não havendo certeza de como vai ser feita a arquitetura para a aplicação de fundos da União Europeia em Portugal, Rio apercebeu-se que pode vir a ser primeiro-ministro mais cedo do que pensava, sobretudo se as condições económicas e financeiras no próximo ano não correrem de feição e Costa não tiver o apoio que teve até aqui da extrema-esquerda parlamentar.

Esse cenário poderá forçar a sua demissão, numa fase em que o presidente Marcelo Rebelo de Sousa estará impedido por força da sua reeleição de convocar eleições legislativas (seis meses antes da sua eleição e seis meses depois da tomada de posse). Neste cenário, Rio pode aspirar a ser primeiro-ministro liderando um governo de iniciativa presidencial. Obviamente que esta aproximação descarada de Rio ao Chega bateu na parede, porque Ventura, inteligentemente, percebeu as intenções de Rio e o que este está a planear.

O Chega só tem um deputado e aspira – baseado em todas as sondagens – a ter um grupo parlamentar muito maior do que o atual. Ventura tem a ganhar em saber esperar; Rio aposta tudo por tudo em tentar “seduzir” Ventura para um casamento à pressa.

Cada vez mais é uma certeza que o PSD só chegará ao poder com o apoio do Cheg, uma vez que o CDS caminha a passos largos para a sua insignificância. O CDS precisa de figuras com outro peso e experiência, como é o caso de Paulo Portas e, sobretudo nesta altura, de Manuel Monteiro. Portas está na vida empresarial e no comentário televisivo. Não quer voltar à liderança partidária tão cedo. Monteiro fez o doutoramento há uns anos, é professor universitário de carreira e tem tempo de sobra para a política. Resta saber se está disponível para evitar a extinção do CDS.

2. As moratórias públicas e privadas dadas durante o período da pandemia facilmente poderão vir a tornar-se o nosso subprime em 2021. Os bancos aproveitaram a apresentação das contas semestrais para informar o mercado que esperam o crescimento dos incumprimentos por parte de quem subscreveu essas mesmas moratórias. Afina, a medida foi um revolving dos empréstimos por mais uns meses, e até pode significar um ligeiro aumento do esforço mensal para quem optou por moratória dos juros, mas que em nada resolveu os problemas estruturais de quem tem dificuldade em pagar.

Sem que se aviste o fim da pandemia, as empresas dos setores mais expostos ao consumo e ao turismo vão enveredar pela insolvência, e as entidades patronais sem as ajudas do lay-off simplificado irão optar por despedimentos coletivos. E os fundos europeus nada podem contra esta dinâmica.

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