Pública ou privada, essa não é a questão

Ser gestor público ou privado não é pois onde jaz questão. Ela está na probidade e competência de quem a exerce. Deem-me mais Silva Lopes e menos Farias de Oliveira.

A opinião dominante entre gestores e empresários e uma parte substancial da população é que a gestão privada é, em geral, competente e responsável e a gestão pública incompetente e irresponsável. Esta simplificação extrema é absurda e ilude a questão, tingindo-a de cores ideológicas e ignorando os factos. Efetivamente, são muitos os exemplos de gestão privada e pública incompetentes bem como são numerosos os exemplos de gestão pública ou privada competentes e eficazes. E há mesmo casos em que se cruza a incompetência de uns e de outros, resultando em fracassos como o da Caixa Geral de Depósitos.

Esta perceção estende-se com frequência à propriedade pública e privada. A propriedade pública é malbaratada enquanto a propriedade privada é cuidadosamente resguardada. Mais uma vez, existem exemplos do contrário em ambos os casos.

Como estas matérias ganham vida nos exemplos, aqui vai uma caterva deles ilustrando a incompetência da gestão privada: BES, BPN, BPP e BANIF, na Banca, PT nas telecomunicações, os CTT no seu setor, a Cimpor nos cimentos, a Somague nas construtoras, a SIVA na distribuição automóvel. Isto para apenas para mencionar alguns.

No setor público também não faltam exemplos de descaso. A Caixa Geral de Depósitos, já mencionada, a CP, a TAP no passado recente (ainda não é certo que a coisa tenha melhorado…), a CARRIS e a Soflusa, nos transportes, muitos dos Hospitais públicos, na saúde (os Hospitais estão constituídos em empresa), e a Comunicação Social pública, por exemplo.

Sem pretender ser exaustivo, merece a pena mencionar algumas das competentes empresas privadas que existem pelo país. Jerónimo Martins, a Sonae(*), Santander Totta, Grupo Amorim, são exemplos de boa gestão. A EdP é bem mais controversa pois beneficia de rendas do Estado e está permanentemente envolvida em “casos” contratuais em que as suspeitas de favorecimento são mais que muitas e sem os quais os resultados estariam longe de ser o que são. A Galp é também uma “legacy company”, como a EdP, mas enfrenta dura concorrência no mercado de exploração, extração e refinação e parece dar-se bem.

Falemos agora dos exemplos de competência de gestão no setor público. Os CTT eram uma empresa pública, rentável e bem gerida. A Banca e os seguros nacionalizados foram competentemente geridos até à sua privatização, com os resultados que se conhecem. O Multibanco, sendo hoje privado, foi feito possível pela gestão pública dos tempos da banca nacionalizada e foi ele que possibilitou a Via Verde, por exemplo. A Marconi era uma verdadeira “blue chip” na altura da propriedade pública e a sua gestão e capacidade de inovação vistas como exemplares. Idem para a Portugal Telecom que a herdou, em parte. Ambas sobreviveram décadas.

A ANA era uma ótima empresa, bem gerida e rentável. Tanto que não lhe faltaram pretendentes na privatização. Hoje continua a sê-lo. Mas exclusivamente na perspetiva do seu acionista privado. O público a quem a concessão é dirigida, não tem aeroportos decentes, nem em número nem em qualidade. E até a TAP se queixa dela. Já para não falar das predatórias taxas.

É portanto fácil de concluir que a gestão em si mesma é competente ou incompetente não na sequência da sua natureza pública ou privada, mas sim pela forma e pela pessoa ou pessoas que a exercem, pela bondade do seu propósito, pela probidade da sua atuação e pela competência técnica aportada ao exercício. Ser gestor público ou privado não é pois onde jaz questão. Ela está na probidade e competência de quem a exerce. Deem-me mais Silva Lopes e menos Farias de Oliveira.

 

(*) Declaração de interesses: sou Administrador Não-Executivo da Sonae MC e Sonae IM

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