Putin, ao longe

André Ventura percebeu que o país de Camões continua a andar com uma pala num olho. É, creio, o único mérito dele.

1. É revelador que em Portugal, no espaço público, haja tanta gente a tagarelar a propósito dos tweets de Trump e dos ditos de Bolsonaro, dois desqualificados, cada um no seu plano, e se dê tão pouca atenção ao que acontece na Rússia, onde Putin se apresta para perpetuar o seu poder com um referendo (na próxima semana, a 1 de julho) que aprovará mudanças na Constituição. Se tudo correr como ele quer, Putin, de 67 anos, ficará com via livre para concorrer (em 2024) a mais dois mandatos de seis anos. Estará garantido até 2036, quando chegar aos 83 anos. Pelo menos até lá, a Rússia não terá outro líder em todo o século XXI.

A história é conhecida. Em 2008,  depois das suas duas presidências iniciais, Putin teve de recorrer a um então amigo, Medvedev, para durante quatro anos continuar a mandar a partir do posto de primeiro-ministro. Retomou em 2012 até à data, com outros dois mandatos, já de seis anos. No futuro, com o contador a zeros, prepara-se para morrer no chamado ‘cumprimento do dever’. Não precisará de subterfúgios. O que é assustador é que tudo isto se passará em Democracia e no escrupuloso cumprimento das regras constitucionais, alteradas por aquilo que será a ‘vontade do povo’. Na política, como no futebol, o talento e descaramento face ao adversário faz a diferença.

2. Putin não é um tonto mal preparado como Bolsonaro. Nem um alarve dos negócios como Trump. Esses sairão de cena um dia destes, através de umas eleições tão normais como aquelas que os fizeram chegar. Entretanto vão perdendo apoios. Putin não. O presidente russo tem outra dimensão intelectual e haver sido agente do KGB, no crepúsculo da URSS, deu-lhe uma bagagem de manipulação que faz parecer meninos de coro os dois amados fantasmas das esquerdas portuguesas.

Como eles, chegou ao poder pelo descontentamento económico e pela falta de segurança, sendo que não falhou. A Rússia cresceu. Os rendimentos das pessoas multiplicaram-se por dois ou três. As revoltas, como na Chechénia, foram esmagadas  sem contemplações. As forças armadas e as polícias viram reforçados os respetivos poderes. Pontualmente, os opositores foram sendo eliminados, pela vida ou por tão dramáticos como oportunos acidentes.

Os organismos internacionais reconhecem tudo isto classificando a Rússia como sendo um regime ‘autoritário’, que permite a existência de verdadeiras máfias em vários sectores da vida do país, sobretudo no económico, no qual prosperam os oligarcas amigos. Até no desporto foi aquilo que se viu com o doping de Estado organizado, a razão pelo qual o país ficará formalmente de fora dos próximos Jogos Olímpicos, disputem-se eles quando se disputarem.

3. O que é curioso é que Putin, tão insensível à Covid-19 como Trump ou Bolsonaro, é muito menos referido pelos media nacionais. Não motiva telejornais. Não levanta preocupações nas redes. Não é debatido nos media. Não gera dúvidas nos partidos. Portugal, mesmo no pós-geringonça, parece anestesiado por uma estranha doença que faz da também já nossa curiosa democracia um objeto de estudo.

O Chega, do também impreparado Ventura, que já este sábado promete uma marcha para a Avenida da Liberdade, em Lisboa, só cresce por causa desta cegueira ideológica. Quando, hoje, se nega o populismo de esquerda, que existe e é tão ou mais perigoso quanto o de direita, como o estalinismo foi tão dramático como o nazismo (de Hitler), é todo um equilíbrio que se perde. Repare-se como alguém autoproclamado antifascista goza de mais consideração do que um equivalente anticomunista quando a rejeição de qualquer tipo de ditadura deveria definir um qualquer banal democrata.

Estamos no território das causas seletivas, num país onde a corrupção grassa e em que tudo o que não é ilegal pode ser possível porque a ética não vale sequer uma nomeação para o Banco de Portugal. André Ventura percebeu que o país de Camões continua a andar com uma pala num olho. É, creio, o único mérito dele.

Recomendadas

Os bancos e as ondas de choque da nacionalização da Efacec

Isabel dos Santos não tinha experiência na área da tecnologia, mas os bancos portugueses emprestaram-lhe 110 milhões para a compra da Efacec porque era tida como uma pessoa poderosa, filha do Presidente de Angola, dona de um vasto império empresarial e parceira de grandes empresas portuguesas. As garantias desse empréstimo esfumaram-se com a nacionalização e agora os bancos esperam que, na melhor hipótese, o Estado lhes pague alguma coisa quando a empresa for reprivatizada.

Proximidade excessiva

O Presidente da República perde-se na realidade do dia a dia, torna-se cúmplice dos acontecimentos e desguarnece a posição de válvula do sistema.

Washington aprende com Paris

Pompeu informou os europeus que “os EUA não vão forçar a Europa a escolher entre o mundo livre ou a visão autoritária da China”, como se fosse isso que estivesse em causa.
Comentários