Quando o caro afinal sai mais barato

Hoje, mais do que nunca, não podemos desistir de procurar caminhos que, no mínimo dos mínimos, maximizem as nossas chances de sobrevivência.

Rios de tinta têm sido escritos sobre as alterações climáticas, as suas consequências e os seus tempos, ou melhor, o tempo que nos resta se não actuarmos. Contudo, parece não ser ainda consensual o alinhamento da maioria das pessoas sobre o que fazer.

Diz-se que “cada cabeça sua sentença” mas, nestes assuntos, em que pouco sabemos sobre o(s) curso(s) de decisão e acção necessários, talvez não deva ficar nas mãos de todos decidir sob pena de nada ser decidido, logo, feito. Mesmo que cada um de nós possa fazer um pouco para mudar o estado das coisas.

A percepção das pessoas em relação ao que lhes importa também tem a ver com a sua faixa etária e os valores mais considerados aquando do seu crescimento. No fundo, assuntos como a protecção do meio ambiente e as alterações climáticas não colhem idêntica percepção junto de todas as faixas etárias da população.

Mas a idade não é o único factor a ter um papel relevante nestas noções, como não é unilateralmente a educação, nem tão-pouco o estatuto social. Se as pessoas mais velhas podem estar menos interessadas em proteger o meio ambiente, porque em média irão viver menos, as mais novas poderão igualmente estar pouco interessadas porque terão tendência a considerar o futuro como algo muito distante. Sobre esta questão existe vasta produção científica.

Mas porque razão é que estas deambulações são importantes? Porque a percepção dos cidadãos não pode ser dissociada de medidas políticas de cariz executivo e isso é fulcral para que sejam tomadas, ou não, acções, como, por exemplo, mas não só, para proteger o planeta.

Como podem as autoridades públicas contornar estas dificuldades? Como podem alguns membros da sociedade ser persuadidos de que a lógica do “quem vier atrás que feche a porta” é má para todos? Para sobrevivência das sociedades e do mundo teremos, em última instância, que nos debruçar sobre isto.

Claro que poderíamos falar e argumentar com a solidariedade, mas acho difícil convencer pessoas com base em solidariedade quando isso tem implicações imediatas no seu rendimento. Poderíamos, quiçá, reforçar a informação sobre os impactos das alterações climáticas, mas com a desinformação que grassa por estes dias não sei se tal terá o impacto desejado: afinal ainda há quem acredite que o mundo é plano, que as vacinas contra a Covid-19 servem para implantar coisas estranhas no nosso corpo, e por aí diante.

Vivemos tempos interessantes, tempos de desafio. Vivemos tempos em que o que parece vingar é “esta é a minha opinião”, ponto final. Isto assusta-me e deveria assustar todos, porque isto impede o debate e o diálogo. Por isso vivemos tempos em que, mais do que nunca, não podemos desistir de procurar caminhos que, no mínimo dos mínimos, maximizem as nossas chances de sobrevivência.

A protecção do ambiente é, ainda assim, uma acção necessariamente colectiva e dispendiosa. No curto prazo é, efectivamente, um grande investimento e requer esforços de todos mas, a médio e longo prazo será certamente um desses casos em que o caro sai barato e não o contrário.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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