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Quando o clima aquece… e os lucros também: ‘traders’ atentos fazem fortuna à boleia das COP

Investigação australiana revela picos de “trading informado” em empresas de combustíveis fósseis durante as cimeiras do clima da ONU. Ganhos potenciais? Até cerca de 23 mil milhões de euros. O planeta transpira, o mercado sorri.
18 Dezembro 2025, 14h27

Enquanto líderes mundiais se reúnem todos os anos para tentar salvar o planeta, há quem esteja muito atento — não tanto às emissões, mas às oscilações do mercado.  Num artigo publicado recentemente na revista  Energy Economics, uma equipa de investigação australiana analisou a atividade em torno das reuniões da COP de “investidores informados”, referindo-se a qualquer investidor que atue com base em informações não públicas que lhe permitam negociar antes do mercado. Resultado? As grandes conferências do clima das Nações Unidas (as famosas COP) são também eventos de alta volatilidade… e alta rentabilidade.

O estudo concluiu que as empresas de combustíveis fósseis registam picos significativos de trading informado durante as negociações climáticas, com ganhos estimados até 25 mil milhões de dólares (cerca de 23 mil milhões de euros) ao longo dos encontros analisados. A investigação analisou dados de 87 empresas de combustíveis fósseis cotadas nos EUA, entre 2006 e 2023, cruzando-os com o calendário das COP. A conclusão é clara: quando o clima político aquece, alguns investidores parecem já saber se vai chover ou fazer sol… antes do boletim oficial.

Comprar ou vender antes do discurso final

Segundo a professora Martina Linnenluecke, da University of Technology Sydney (UTS) e coautora do estudo, os sinais mais fortes de trading informado surgem imediatamente antes do início formal das COP, muitas vezes à sexta-feira e à segunda-feira, quando os delegados chegam, circulam rumores e decorrem reuniões preliminares. “Durante estes períodos, as ações das empresas de combustíveis fósseis comportam-se como se alguns traders já tivessem uma ideia clara do rumo da política climática”, explica a investigadora.

A lógica é simples (e fria): Acordos climáticos fortes à vista? Vender cedo pode ser um excelente negócio. Negociações fracas ou inconclusivas? Comprar antes dos outros pode render milhões. O estudo estima que o pico máximo de ganhos tenha ocorrido durante a COP20, com lucros superiores a 12 mil milhões de dólares (cerca de 11 mil milhões de euros).

Legal, mas incómodo

Apesar do tom quase cinematográfico, há um detalhe importante: “Este tipo de trading não é ilegal. Não existem atualmente regras específicas que impeçam investidores de agir com base em sinais não públicos recolhidos em contextos como as COP”, diz Linnebluecke, considerando ainda preocupante não terem sido ainda criadas regras para este tema.

Ainda assim, os autores do estudo deixam um aviso sério (sem humor): esta assimetria de informação levanta problemas de justiça de mercado, proteção dos investidores e até de credibilidade das políticas climáticas. “Quando decisões que moldam a transição energética global podem ser antecipadas por alguns para ganho privado, algo não está bem”, sublinha Linnenluecke.

Mais transparência, menos “insiders do clima”

A equipa defende regras de divulgação mais robustas, protocolos de comunicação mais claros e salvaguardas que evitem que o acesso privilegiado às negociações climáticas se transforme numa mina de ouro para poucos.

Até lá, uma coisa parece certa: enquanto o mundo debate como travar o aquecimento global, há quem continue a provar que, nos mercados, nunca se deve desperdiçar uma boa crise — nem sequer uma climática.


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