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Quando o excecional passa a ser a norma: Portugal na linha da frente das alterações climáticas (I)

O risco de inundações em Portugal não é apenas determinado pela intensidade das chuvas. Resulta também de decisões sobre a utilização do solo, superfícies impermeáveis, construções em áreas propensas a inundações e sistemas de drenagem projetados para um clima que já não existe.
©STRINGER/ANADOLU/AFP/METSUL
27 Fevereiro 2026, 00h12

A chuva não chegou como um aviso. Chegou como uma rutura. Estradas fechadas, rios a transbordar, bairros temporariamente isolados. Em todo o território português e, mais amplamente, em toda a Península Ibérica, os primeiros meses do ano foram marcados por uma sucessão de tempestades que transformaram infraestruturas rotineiras em pontos de falha e o clima normal numa força organizadora da vida quotidiana.

O instinto de descrever tais eventos como “excecionais” continua a ser muito forte. Isso tranquiliza-nos, pois mostra que a normalidade ainda existe em algum lugar além da planície aluvial. No entanto, a repetição corrói a linguagem. Quando chuvas recordes ocorrem não uma, mas várias vezes numa única estação do ano, quando as respostas de emergência são repetidamente ativadas, o que foi classificado de “excecional” deixa de fazer sentido. O que estamos a testemunhar não é uma coincidência de infortúnios, mas a lenta normalização da perturbação.

Só em Portugal, as chuvas intensas associadas às tempestades Kristin, Leonardo e Marta provocaram inundações generalizadas, evacuações, paralisação dos transportes e várias mortes.

Rios como o Tejo ultrapassaram os limites históricos, inundando planícies aluviais e áreas urbanas. Embora os números finais variem, várias mortes foram associadas direta ou indiretamente a inundações, além de milhares de pessoas deslocadas, elevadas perdas agrícolas e danos significativos à infraestrutura. Não se trata de impactos abstratos. Medem-se em vidas, casas e recursos públicos desviados para a resposta a emergências.

Observação e análise

Existe pouca ambiguidade científica sobre o padrão mais amplo em que estes eventos se inscrevem. Uma atmosfera mais quente retém mais humidade — cerca de 7% mais por grau Celsius de aquecimento — intensificando o ciclo hidrológico e aumentando a probabilidade de precipitação extrema.

O sul da Europa tem sido repetidamente identificado como um ponto crítico do clima, exposto simultaneamente a secas mais frequentes e a chuvas mais intensas. O mesmo sistema que seca o solo e pressiona os ecossistemas no verão também amplifica a violência das tempestades quando elas chegam.

Esta avaliação não é especulativa. Baseia-se na observação e análise sistemáticas produzidas pelo Serviço Europeu de Alterações Climáticas Copernicus, que fornece indicadores climáticos fiáveis à escala global, europeia e regional. De acordo com os dados do Copernicus, a Europa aqueceu mais do dobro da média global desde a década de 1980.

Os últimos anos têm sido dos mais chuvosos de que há registo em partes da Europa Ocidental e Meridional, com períodos curtos de precipitação intensa, em vez de uma acumulação gradual – padrão este estreitamente associado ao risco de inundações.

Imagem de deteção de alterações do radar de abertura sintética Copernicus Sentinel-1, mostrando a extensão das inundações na bacia do rio Tejo, comparando 27 de dezembro de 2025 e 7 de fevereiro de 2026, após as tempestades Kristin, Leonardo e Marta. Contém dados Copernicus Sentinel modificados (2025-26), processados pela ESA.

 

As observações via satélite não acrescentam dramatismo, mas sim precisão. As imagens de radar do satélite Copernicus Sentinel-1 conseguem penetrar a massa de nuvens e operar dia e noite, permitindo mapear a extensão das cheias em tempo quase real.

No início de fevereiro, as observações revelaram a dimensão espacial completa da inundação ao longo da bacia do Tejo, destacando áreas onde os níveis de água subiram rapidamente e permaneceram elevados. As zonas vermelhas nessas imagens não correspondem a pixéis abstratos, mas a campos agora inutilizáveis, estradas submersas e casas temporariamente perdidas.

Os dados a nível nacional são igualmente claros. De acordo com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), janeiro de 2026 foi classificado como “muito chuvoso” em Portugal continental. A precipitação total atingiu aproximadamente 233 mm, mais do dobro da média de 1991–2020. Este é, assim, o segundo janeiro mais chuvoso desde 2000 e um dos mais chuvosos desde que há registos (1931).

Em quase 80% das estações de monitorização, os totais de precipitação excederam o dobro da norma mensal, com algumas localizações a registarem três vezes mais os valores esperados.

As condições hidrológicas amplificaram o impacto. No final de janeiro, os dados do IPMA indicavam níveis de humidade do solo acima da capacidade de campo em todo o país, com muitas regiões próximas da saturação total. Nessas condições, a água de chuvas adicionais não se infiltra no solo, escoa. As inundações deixam de ser uma anomalia e passam a ser uma consequência natural.

A tempestade Kristin produziu, por si só, rajadas de vento superiores a 150 km/h em distritos como Leiria e Coimbra, agravando os danos e sobrecarregando os sistemas de resposta a emergências.

Planeamento urbano e territorial

Estes números são importantes porque expõem uma vulnerabilidade estrutural na forma como o território é planeado e gerido. O risco de inundações em Portugal não é apenas determinado pela intensidade das chuvas. Resulta também de decisões sobre a utilização do solo, superfícies impermeáveis, construções em áreas propensas a inundações e sistemas de drenagem projetados para um clima que já não existe.

A expansão urbana assentou, amiúde, na premissa da estabilidade estatística, a qual já foi invalidada, de forma contundente, pelos dados climáticos. Em suma, os impactos climáticos não podem ser tratados apenas como variáveis ambientais, antes devem ser tratados como parâmetros essenciais do planeamento urbano e territorial.

Especialista escreve sob pseudónimo

Este ensaio é composto por duas partes. A segunda será publicada na edição de 6 de março.

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