A Alemanha atravessa a sua pior crise económica em duas décadas. Os números são inequívocos: 17.604 empresas declararam insolvência em 2025, o valor mais elevado desde 2005, ultrapassando mesmo o registado durante a crise financeira de 2008. Este é o dado que deverá estar a fazer soar os alarmes em Berlim, mas que devia também fazer soar em toda a União Europeia.

O que torna esta realidade particularmente preocupante não é apenas a magnitude das falências, mas a sua distribuição e impacto. Segundo o Instituto Leibniz de Investigação Económica, estas insolvências afetaram 170.000 postos de trabalho, dos quais 62.000 apenas na indústria transformadora. Entre as grandes empresas, aquelas com mais de 10 milhões de euros em vendas anuais, o cenário é ainda mais sombrio: 471 declararam insolvência em 2025, um aumento de 25% face ao ano anterior.

Estamos perante uma crise que os investigadores alemães já não atribuem aos efeitos residuais da pandemia ou ao aumento das taxas de juro de 2022. O que assistimos hoje reflete desafios económicos estruturais profundos que colocam em causa o modelo de crescimento que tornou a Alemanha a locomotiva da Europa durante décadas.

A raiz do problema está numa tríade venenosa: custos energéticos excessivamente elevados, perda de competitividade industrial e incapacidade de adaptação tecnológica. A transição energética, embora necessária, transformou-se num fardo competitivo. A Alemanha possui hoje alguns dos preços de eletricidade mais altos da Europa, penalizando severamente as indústrias com utilização intensiva de energia. A decisão de eliminar a energia nuclear sem garantir alternativas competitivas revelou-se um erro estratégico caro.

A indústria automóvel, pilar histórico da economia germânica, exemplifica a dificuldade de adaptação. Enquanto liderava a tecnologia de motores de combustão, a transição para veículos elétricos apanhou os gigantes alemães em contrapé, permitindo à concorrência asiática, particularmente chinesa, ganhar terreno decisivo. A produção industrial alemã caiu 17% desde 2017, um dado que ilustra a erosão da base produtiva do país.

Mas há problemas ainda mais profundos. A Alemanha enfrenta desafios demográficos estruturais, com uma população envelhecida e escassez de trabalhadores qualificados. A produtividade estagnou. O país que simbolizava eficiência e inovação parece agora incapaz de acompanhar as novas tecnologias, desde a inteligência artificial à economia digital.

O contexto político agrava o cenário. A coligação governamental colapsou em 2025, levando a eleições antecipadas em fevereiro de 2026. A instabilidade política paralisa a capacidade de resposta às crises. O travão da dívida constitucional, que limita o endividamento público, impede o investimento público necessário em infraestruturas e inovação, mesmo numa economia com uma das mais baixas rácios dívida-PIB entre as economias avançadas.

As projeções para 2026 não oferecem alívio. Analistas preveem que as insolvências de grandes empresas continuem a aumentar entre 15% e 20%, impulsionadas pela fraqueza estrutural, redução da produção industrial e barreiras comerciais com os Estados Unidos sob a administração Trump. O Instituto Kiel prevê crescimento zero, enquanto o Bundesbank aponta para meros 0,2%.

Para Portugal, esta crise alemã tem implicações diretas. A Alemanha é o segundo maior destino das exportações portuguesas, representando 11% do total. A quebra na procura alemã traduz-se em menos encomendas para a indústria portuguesa. O turismo alemão, outra fonte importante de receitas, também poderá contrair-se. Acresce que, como maior contribuinte do orçamento da UE, uma Alemanha em dificuldades terá menor capacidade de financiar os fundos estruturais de que Portugal depende.

Há três décadas, a Alemanha era o “grande doente da Europa”. As reformas de Gerhard Schröder, embora impopulares, lançaram as bases para duas décadas de crescimento. A questão que se coloca agora é se o país terá a vontade política para empreender as reformas estruturais necessárias: liberalização do mercado de trabalho, investimento massivo em infraestruturas digitais e energéticas, simplificação burocrática e abertura à imigração qualificada.

A diferença é que, desta vez, o tempo não está do lado da Alemanha. Numa economia globalizada e com mudanças tecnológicas aceleradas, a janela de oportunidade para reinvenção é mais curta. E quando o motor da Europa engasga, todo o continente sente as consequências.